Risco estratégico no custo da construção

Inflação e juros atingem um setor especialmente importante para a criação de empregos e o crescimento da economia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2022 | 03h00

Custos em alta pressionam a construção civil, um setor importante pela criação de empregos e pela ampla demanda de insumos, como aço, alumínio, cobre, cimento, concreto, vidro, plásticos, produtos de cerâmica e madeira, além de equipamentos variados. Puxados principalmente pelos materiais, os custos da construção subiram 1,21% em abril, a maior taxa desde agosto do ano passado, e aumentaram 15% em 12 meses, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As pressões tendem a intensificar-se. Grandes fornecedoras anunciaram elevações de preços entre 10% e 16% para cimento, concreto e argamassas. Além disso, algumas deixaram de trabalhar com vendas antecipadas, passando a cobrar preços novos pelos produtos entregues depois de cada reajuste, segundo noticiou o Estadão na quarta-feira.

O aumento de custos da construção civil é parte do surto inflacionário iniciado em 2021. Com preços mais altos, ganhos menores e juros elevados, consumidores perdem acesso ao crédito imobiliário. Esse tipo de financiamento atingiu R$ 41,2 bilhões no primeiro trimestre deste ano, com redução de 3,7% em relação ao valor de um ano antes, pelos dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). As unidades financiadas passaram de 188,4 mil para 176 mil, com diminuição de 6,6%. Na contramão dos bancos privados, no entanto, a Caixa vem procurando ampliar seus empréstimos, com redução de juros da linha atrelada à poupança e maiores facilidades para os tomadores de recursos. No ano passado, a participação da Caixa nesse mercado recuou de 69,3% para 66,5%. Com o novo impulso, essa perda talvez seja mais que compensada.

Esse movimento é especialmente importante quando a maior parte do poder central pouco faz para estimular a economia e garantir um crescimento maior que as taxas projetadas pelo mercado. Essas projeções têm raramente superado 1%.

Pelos vínculos com muitas indústrias fornecedoras de insumos, assim como por seu potencial de criação de empregos, a construção civil tem considerável importância estratégica. No ano passado, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,6%, a produção das construtoras aumentou 9,7%, compensando com folga a perda de 6,3% ocorrida em 2020. No primeiro trimestre deste ano o setor produziu 3,7% mais que nos três meses finais de 2021. Além disso, cresceu 12,4% nos 12 meses até março, segundo o Monitor do PIB-FGV, importante prévia das contas nacionais trimestrais do IBGE.

No balanço do emprego em 2021, o maior crescimento porcentual, 13,8%, ocorreu na construção, com aumento líquido de 845 mil postos de trabalho. No primeiro trimestre deste ano, porém, o setor perdeu 252 mil pessoas, segundo o IBGE, mas ainda manteve aumento de 815 mil em relação a um ano antes. Apesar disso, o quadro geral da ocupação se manteve muito ruim, com 11,9 milhões de desempregados no trimestre inicial de 2022. Os brasileiros estariam mais seguros se o poder central desse alguma importância a esses números.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.