Rojões no mercado

Há sinais de otimismo na bolsa e no câmbio, mas projeções do PIB continuam piorando

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2020 | 03h00

Festas juninas começaram mais cedo no mercado brasileiro, com investidores soltando rojões pelos 2,5 milhões de empregos criados nos Estados Unidos, em maio, e pela reabertura, ainda gradual, das economias avançadas. A alegria pode parecer estranha, porque continuam piorando as projeções para o País em 2020. Pela nova estimativa do Banco Mundial, recém-anunciada, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil encolherá 8% neste ano. O cálculo anterior, publicado em abril, indicava uma contração de 5%. Perspectivas piores têm sido apontadas também por outras fontes. Em São Paulo, no entanto, a Bolsa de Valores voltou a superar 90 mil pontos e o dólar chegou a recuar, nos últimos dias, para menos de cinco reais. Há algo, afinal, para celebrar na economia brasileira?

A retração podia ter sido mais feia, dizem alguns analistas. O pior já passou, sustentam outros. O fundo do poço foi atingido em abril, afirma a economista-chefe do banco Santander, Ana Paula Vescovi. Agora, acrescenta, parecem surgir alguns sinais de recuperação. Segundo o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, o impacto econômico do coronavírus foi menos forte do que se esperava. A produção industrial caiu cerca de 20%, mas a projeção, de acordo com ele, indicava 30%. Pelas contas do Bradesco, o PIB deverá diminuir 5,9% neste ano, mas a retomada, acrescenta Honorato, poderá ser melhor do que se esperava.

Se o fundo do poço foi atingido em abril só se descobrirá mais tarde, mas o tombo, pelas estimativas iniciais, foi mesmo grande. A economia caiu 7% naquele mês, em relação a março, segundo a primeira prévia do Índice de Atividade Econômica produzido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). A comparação com o dado de abril de 2019 mostra uma queda de 10,9%. O confronto dos primeiros quatro meses de 2020 com os primeiros quatro do ano passado indica um recuo de 2,6%. A variação acumulada em 12 meses foi nula.

A piora do cenário, em abril, também fica muito clara quando se consideram os valores trimestrais. No primeiro trimestre, o PIB foi 1,2% inferior ao do período de outubro a dezembro, como já havia divulgado o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quando se compara o período fevereiro-abril com o trimestre novembro-janeiro a queda mais que quadruplica e chega a 5%. Esse indicador, baseado nas informações setoriais do IBGE, ainda será revisto nas próximas semanas.

O ambiente menos sombrio dos investidores, indicado pela valorização das ações e pelo recuo recente do dólar, desaparece, ou pelo menos fica pouco visível, quando se examinam as expectativas coletadas pelo Banco Central (BC) na pesquisa semanal Focus. No último levantamento a estimativa do PIB caiu pela 17.ª semana consecutiva. Agora se calcula uma contração de 6,48% em 2020, segundo a mediana das projeções. Quatro semanas antes essa mediana indicava recuo de 4,11%. Também piorou sensivelmente a expectativa quanto à produção industrial. Em quatro semanas a redução estimada passou de 3% para 5,35%.

Embora investidores e alguns analistas mostrem mais otimismo, a recuperação projetada para 2021, na pesquisa do BC, continua longe de espetacular. O crescimento estimado para o PIB ficou em 3,50% nas últimas duas pesquisas. Há quatro semanas estava em 3,20%. Mas o crescimento é agora calculado sobre uma base mais baixa que a anteriormente prevista.

O risco mais previsível é o de uma recuperação interrompida por uma piora do quadro sanitário ou por uma segunda onda de covid-19. Esse perigo tem sido apontado por epidemiologistas e por economistas atentos a avaliações médicas. Experiências de outros países, assim como as avaliações da Organização Mundial da Saúde (OMS), também mostram os cuidados necessários a uma retomada segura. Recheada de assuntos pessoais e eleitorais, a agenda do presidente Jair Bolsonaro continua longe dessas questões. Resta esperar sensatez de governadores e prefeitos, pelo menos daqueles preocupados, ao contrário do presidente, com a saúde e a vida dos brasileiros.

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