Ruas em estado lastimável

São Paulo não está condenada a esperar 20 anos para ter vias em estado decente

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 03h00

A foto de um carro se equilibrando na beirada de um grande buraco de rua, publicada na primeira página do Estado (10/1), espelha a realidade de um velho problema – o de vias públicas em estado lastimável. Entra prefeito, sai prefeito, e não faltam promessas não cumpridas de uma São Paulo finalmente com ruas decentemente recapeadas. O máximo que se consegue são alguns avanços tímidos, muito menores do que a rapidez com que os buracos proliferam.

Entre 2017 e 2018, as queixas sobre buracos nas ruas cresceram 32% : passaram de 147,6 mil para 198,7 mil, de acordo com dados divulgados no início do ano passado. Embora os números referentes a 2019 ainda não sejam conhecidos, a sofrida experiência diária dos paulistanos, a pé ou de carro, sempre correndo o risco de cair num buraco, faz com que dificilmente se encontre um que aposte na melhora da situação. É assim em todas as regiões, na periferia e nos bairros centrais.

O buraco da foto publicada pelo Estado foi aberto na Rua Carlos Comenale, perto da Avenida Paulista, depois de uma forte chuva. Segundo o testemunho dos moradores, logo que o carro entrou na via o chão se abriu na sua frente. O motorista teve sorte. Estava sozinho e conseguiu sair pela porta do passageiro. Experiências como essa se repetem diariamente.

Nem mesmo as autoridades municipais tentam mais disfarçar essa realidade. Prova disso são as medidas que estão sempre anunciando para pelo menos amenizar o desastre. No dia 20 de novembro do ano passado, o prefeito Bruno Covas anunciou sua decisão de investir R$ 500 milhões no recapeamento de vias até 2020. Ele tem razão ao afirmar que recapear é a solução correta, pois “o tapa-buraco é o serviço paliativo”. Mas não é fácil resolver o problema, porque aquela quantia dá para recuperar poucas vias. São Paulo tem mais de 17 mil quilômetros de vias e Covas lembra que não há como, numa só gestão, gastar “os bilhões e bilhões de reais (necessários) para recapear a cidade. O serviço vai sendo feito, mas ele gera resultado somente a longo prazo”.

Se for mantido o ritmo atual de investimento, “talvez em 20 anos a gente possa ter um (sistema) viário melhor”. Essa situação, com a qual o prefeito parece se conformar, é inaceitável. É possível mudá-la, se o prefeito e vereadores estiverem dispostos a incluir esse problema entre as prioridades da cidade. Com a rapidez desejada pela população não se recapeará toda a cidade, porque o abandono a que foi legado o sistema viário, em sucessivos governos municipais, durou muito tempo. Mas São Paulo não está condenada a esperar 20 anos para ter vias decentes. Um programa de mais curta duração, com a necessária continuidade administrativa, é não só viável, como indispensável.

Em outras medidas importantes adotadas para reduzir mais rapidamente a praga dos buracos, que se multiplicam muito mais depressa do que são fechados, o prefeito foi mais feliz. Um exemplo é o prazo máximo fixado, em meados do ano, para atender às solicitações de tapa-buraco: ele caiu de 45 para 10 dias. Para isso, prometeu colocar mais 100 caminhões trabalhando exclusivamente nesse serviço.

Outro exemplo é o decreto que baixou, fazendo maiores exigências às permissionárias e concessionárias de serviços de infraestrutura urbana (tais como gás, telefonia, energia elétrica, internet e água) com relação aos buracos que abrem para consertos ou ampliação de redes. Segundo Covas, mais de 90% dos buracos abertos são de responsabilidade dessas empresas. Até maio de 2020, elas deverão entregar à Prefeitura o cadastro das redes existentes.

A partir daí, será feito o mapeamento do espaço subterrâneo das vias públicas. As informações deverão facilitar o planejamento das obras que as obrigam a abrir buracos nas vias públicas. E elas terão também de melhorar a repavimentação das vias após as obras.

O caminho para resolver o problema é conhecido. Falta agir.

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