Ruído nas pesquisas eleitorais

Está claro que elas precisam passar por um contínuo processo de recalibragem

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 03h30

Nos últimos anos, concomitantemente com os ruídos no debate público suscitados pela ascensão dos populismos e a polarização nas redes sociais – que deveriam ser uma ferramenta do processo democrático –, as pesquisas de intenção de voto têm mostrado imprecisões preocupantes. Especialmente desde as eleições norte-americanas de 2016, quando as pesquisas subestimaram amplamente o eleitorado de Donald Trump apontando a vitória de Hillary Clinton, os institutos de pesquisa têm sofrido severas críticas e ataques à sua credibilidade.

Nas eleições norte-americanas de 2020, as projeções apontaram corretamente que Joe Biden levaria a maioria absoluta dos votos e dos delegados. Contudo, a margem de diferença foi bem menor do que se previa e em vários Estados as pesquisas apontaram equivocadamente a derrota de Trump.

Ainda tomará muitos meses até que a indústria de pesquisas colete todos os dados necessários para extrair sólidas conclusões de sua atuação. Mas o Pew Research Center, um dos mais reputados institutos de pesquisa do mundo, apresentou um diagnóstico preliminar com uma série de hipóteses sugestivas e prescrições terapêuticas. A avaliação é restrita aos EUA, mas, abstraídas as particularidades do sistema eleitoral americano, pode ser útil aos analistas que lidam com o mesmo problema em outros países.

Possivelmente, a principal hipótese a justificar os erros de avaliação seria a “não resposta partidária”. Segundo ela, eleitores democratas são mais acessíveis e bem-dispostos a responder pesquisas do que os republicanos, em geral mais desconfiados de instituições como a grande mídia e institutos de pesquisas. Isso implica uma sub-representação sistêmica a ser compensada pelos procedimentos estatísticos não só para as pesquisas de intenção de voto, mas para as pesquisas de opinião em geral, como por exemplo as relacionadas ao coronavírus ou às mudanças climáticas.

O desafio é duplo: estimar corretamente e recorrentemente a parcela de eleitores conservadores e corrigir na sua amostragem os eventuais desequilíbrios entre aqueles predispostos a participar das pesquisas e os não predispostos.

Uma segunda hipótese foi popularizada como a dos eleitores “envergonhados”. Nesse caso, muitos eleitores de Trump teriam se esquivado de declarar seus votos ou por temor de constrangimento social ou para deliberadamente desorientar os pesquisadores. A ideia é plausível, mas, segundo o Pew Research, improvável: uma quantidade considerável de pesquisas não foi capaz de produzir evidências que a corroborem. Muitas pesquisas eleitorais, por exemplo, subestimaram os eleitores de diversos candidatos republicanos bem menos controvertidos do que Trump.

As duas outras hipóteses estão relacionadas com falhas nas estimativas de comparecimento. Em sistemas nos quais o voto não é obrigatório, as pesquisas têm de estimar não só a intenção de voto, mas a intenção de votar. Nesse caso, é possível que os institutos até tivessem uma amostragem correta dos apoiadores de Trump, mas não tenham mensurado corretamente o seu entusiasmo para comparecer às urnas.

A outra possibilidade é mais circunstancial: eleitores democratas revelaram tendencialmente mais apreensão com o vírus, e talvez tenham declarado o voto, mas acabaram por não comparecer às urnas, enquanto os eleitores republicanos conduziram um esforço eleitoral mais tradicional, indo às ruas e comparecendo aos colégios eleitorais. Neste caso, a pandemia teria só acentuado um risco de distorção, de resto bastante evidente, a ser minimizado: nem todas as intenções de voto podem ser consideradas efetivamente como votos.

Tudo somado, é possível que todos estes fatores tenham convergido numa “tempestade perfeita” que acabou por tirar as pesquisas dos eixos. De todo modo, é promissor que as imprecisões tenham sido bem menores que em 2016. Resta claro, contudo, que, sendo a democracia, por natureza, como que um ser vivo em constante mutação, as pesquisas precisam passar por um contínuo processo de recalibragem para acompanhar as transformações comportamentais do eleitorado.

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