Rumo à normalidade sem brilho

Crescimento continua, mas a volta ao normal é o retorno ao padrão do baixo dinamismo.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2021 | 03h00

A recuperação da economia, ainda incompleta, continuou em novembro, com expansão de 11% em relação ao volume produzido em outubro. No trimestre móvel o avanço chegou a 4,4%. Ainda abaixo do patamar pré-pandemia, a produção também continua inferior à de um ano antes, com recuo de 0,6% na comparação mensal e de 1,7% no confronto do trimestre móvel encerrado em novembro com igual período de 2019. Os dados são do Monitor do PIB-FGV. Esse trabalho, produzido mensalmente, é em geral a melhor antecipação do Produto Interno Bruto (PIB) divulgado a cada três meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Houve crescimento mensal nas três grandes atividades econômicas, agropecuária, indústria e serviços. Com isso se manteve a tendência à normalização da atividade econômica, iniciada em maio, depois da grande queda ocorrida em março e abril, quando os negócios foram afetados pelo choque inicial da pandemia. Os sinais de retomada se prolongam, portanto, e a economia parece voltar “a seu antigo normal de crescimento fraco e instável”, comentou o coordenador responsável pelo Monitor, Claudio Considera.

O comentário sobre o “antigo normal” é um lembrete importante para quem se esforça para prospectar a evolução provável da economia neste ano e nos próximos. A atividade produtiva perdeu dinamismo nos últimos dez anos, mais claramente a partir de 2012. Nesse período, atravessou uma recessão (2015-2016), desviando-se da tendência mundial, e nunca voltou a avançar com dinamismo, mesmo antes da pandemia.

Especialmente grave, nessa fase de baixo vigor, foi o enfraquecimento da indústria. Houve pouca inovação e pouco esforço de ampliação e de modernização do setor manufatureiro, enquanto a agropecuária se manteve dinâmica, eficiente e com alto poder de competição internacional. Alguns setores industriais, como o aeronáutico, e alguns grupos empresariais de outros segmentos também se destacaram do padrão geral.

O crescimento foi também afetado pela ineficiência do setor público, pelo desperdício de recursos, pelas muitas deficiências da infraestrutura e pelo baixo nível de investimento. O setor privado foi responsável pela maior parte do recurso investido em máquinas, equipamentos e obras e tem mantido esse papel.

O consumo das famílias tem sido o principal motor da recuperação, desde maio, mas fraquejou em novembro, principalmente pela redução de gastos em serviços. Essa queda do consumo foi compensada, pelo menos em parte, pelo aumento do valor investido em capital produtivo (alta de 1,2% no mês). No trimestre móvel setembro-novembro, o total aplicado na formação bruta de capital fixo foi 1% maior que o de um ano antes. Foi o primeiro aumento, nessa comparação, depois de sete retrações consecutivas.

Apesar dessa melhora, o investimento produtivo permanece muito abaixo das necessidades nacionais. Em novembro, a soma investida equivaleu a 16,8% do PIB estimado. A relação superou a média mensal observada a partir de janeiro de 2015 (15,7%), mas foi inferior à registrada para o período iniciado em janeiro de 2000 (17,9%).

Mesmo a média a partir de 2000 é muito baixa, quando comparada com os padrões de países mais dinâmicos e com as necessidades brasileiras. Há muito tempo a economia nacional tem sido incapaz de manter um crescimento anual em torno de 4%. As taxas de médio e de longo prazos normalmente projetadas por economistas do mercado e de instituições multilaterais ficam na faixa de 2,2% a 2,5%. São projeções baseadas no mísero potencial de crescimento geralmente atribuído ao Brasil.

Investimento bem mais alto, na faixa de 24% a 25% do PIB, é o mínimo apontado como necessário para taxas de crescimento na faixa de 4% a 5% ao ano. Mas isso se refere apenas ao investimento em capital fixo, isto é, em máquinas, equipamentos e obras. Crescimento mais rápido e sustentável depende também, e cada vez mais, de capital humano, isto é, de gente bem preparada e capacitada para aprender. Não contem com o governo Bolsonaro para cuidar desse problema.

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