Saídas da crise para a América Latina

Qualquer solução para os problemas da América Latina passa pela educação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2021 | 03h00

“Hoje nos encontramos ante um enorme paradoxo: não há dúvida de que a pandemia teve grandes efeitos destrutivos”, constatou o ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento Luis Moreno, “mas também levou a uma enorme aceleração da inovação e da transformação digital.” Para Moreno, “temos duas grandes tendências no mundo de hoje: um movimento rumo a uma economia mais digital e o eixo do mundo, em termos econômicos, cada vez mais orientado para a Ásia”. Neste cenário, quais os desafios da América Latina para a saída da pandemia? A questão serviu de alavanca a um debate entre Moreno e Fernando Henrique Cardoso, promovido pela Fundação FHC.

A pandemia atingiu uma economia latino-americana debilitada. Se em 2020 a economia global encolheu cerca de 3,5% e, em 2021, deve crescer cerca de 5,5%, na América Latina a contração foi de quase 8% e o crescimento deve ser de 3,5%. A dívida pública da região, que no início de 2020 estava em torno de 60%, agora chega a 70%. “Ou seja”, constatou Moreno, “boa parte de todo o estímulo fiscal foi feita com dívida.” E ainda que estes estímulos tenham aliviado momentaneamente a pobreza, ela crescerá – em alguns casos nos níveis de duas décadas atrás.

Some-se a isso o fato de que a transformação do mercado de trabalho promovida pela revolução digital foi acelerada pela pandemia. Estima-se que em oito meses o comércio eletrônico, por exemplo, avançou o equivalente a três ou quatro anos. Mas nos países desenvolvidos o avanço foi maior e menor nas regiões em desenvolvimento, como a América Latina. Segundo Moreno, enquanto nos EUA o comércio eletrônico saltou algo entre 50% e 80%, no Brasil foram cerca de 40% a 50%.

Nestas condições, “não creio que a recuperação será em V, temo que será em U”, constatou FHC. “Será difícil, porque as mudanças na tecnologia produtiva são muito grandes e as pessoas não estão capacitadas para isso.” De resto, sobre o cenário político, FHC pontuou: “O sistema partidário não se deu conta do salto que está se produzindo na consciência das pessoas sobre a política”. Neste estado de desagregação, “pode haver um agravamento do populismo”.

Nem por isso, os latino-americanos imbuídos de espírito cívico podem renunciar à “grande questão”, segundo Moreno: “Como aproveitamos esta crise para gerar mudanças profundas na América Latina?”.

De pronto, há algum esteio econômico com as perspectivas para a exportação agrícola – sobretudo ante o desempenho econômico da China. Mas isso nem de longe será suficiente para um crescimento sustentável e muito menos para “desnaturalizar a desigualdade”, nas palavras de FHC. Ao contrário, sem reformas estruturais do “contrato social”, a desigualdade e, logo, as rupturas sociais podem aumentar.

Entre essas reformas, os debatedores deram especial destaque à educação, um setor no qual o desempenho latino-americano já era ruim antes da pandemia e foi agravado por ela. As taxas de paralisação das escolas na região foram em geral maiores do que nos países desenvolvidos, e o acesso a meios digitais, mais escassos.

A capacitação para novas tecnologias é essencial. Moreno citou alguns casos exemplares de capacitação por parte da iniciativa privada. Contudo, “não há políticas públicas que cheguem a milhões de pessoas”. O avanço “exigirá uma conversa público-privada muito mais profunda”. Analogamente, do ponto de vista político, Moreno citou experiências exitosas de governadores e prefeitos na resolução de problemas imediatos em nível local. Mas, para que esses exemplos se enraízem, ramifiquem e frutifiquem, também será necessária uma educação capaz de fomentar nos latino-americanos o espírito cívico e forjar lideranças comprometidas com a coisa pública. 

Ante a recessão econômica, o desgoverno político e o avanço precário da vacinação na América Latina, a curto prazo “não se pode olhar adiante com muitas expectativas”, disse com franqueza FHC. Mas, a longo prazo, as soluções para a crise econômica, cívica e política da América Latina passam todas pela educação.

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