Saindo do buraco

A economia se move, mas é preciso investir muito mais para ganhar dinamismo

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 03h30

A recuperação continua, as vitrinas se enfeitam e o fim de ano traz a perspectiva de melhores negócios, mas as contas disponíveis mostram uma retomada incompleta. O avanço de 7,5% no terceiro trimestre foi insuficiente para reverter o tombo do trimestre anterior, quando a economia despencou 9,7%. Além disso, a atividade no período de julho a setembro foi 4,4% inferior à de um ano antes e 5% menor que a dos três meses finais de 2019, segundo o Monitor do PIB-FGV.

O Monitor, publicação mensal da Fundação Getúlio Vargas (FGV), é em geral uma boa prévia das contas nacionais, apresentadas a cada três meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O anúncio oficial do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre está programado para 3 de dezembro. O balanço geral de 2020 só deverá ser conhecido no começo de março do próximo ano. As projeções divulgadas até agora apontam uma queda em relação a 2019 – um recuo na faixa de 4% a 4,6%.

Sair do buraco tem sido difícil também para países do mundo rico e para a maior parte dos emergentes. Depois de afundar 10,6% no segundo trimestre, os 37 membros da OCDE, a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, avançaram em média 9% nos três meses seguintes, sem recobrar, portanto, o espaço perdido. Nas sete maiores economias a queda de 11,9% foi seguida de um repique de apenas 4,2%.

A comparação fica muito menos confortável para o Brasil quando se examinam outros dados. O desempenho da economia brasileira foi muito fraco nos últimos dez anos. Nesse período o País cresceu menos que outros emergentes, incluídos os mais dinâmicos da América do Sul, e, além disso, atravessou uma recessão em 2015 e 2016.

O avanço a partir de 2017 foi também muito lento. O crescimento do PIB em 2018 foi revisto pelo IBGE de 1,3% para 1,8%. Segundo o Monitor, o dado de 2019 será provavelmente retificado de 1,1% para 1,6%. Se essa expectativa for confirmada, o desempenho no primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro continuará inferior ao do último ano do presidente Michel Temer. A sequência de números nesses anos passará de 1,3% e 1,1% para 1,8% e 1,6%.

É preciso levar em conta a fraca evolução da economia no último decênio para avaliar a situação atual e as perspectivas de expansão a partir do próximo ano. Por enquanto, os números da reação a partir de maio dão algum alívio.

O balanço elaborado pela FGV mostra um terceiro trimestre com recuperação da indústria e, em ritmo bem mais lento, dos serviços. A agropecuária passou pelo choque de março-abril praticamente sem dano, ou sem dano significativo. Houve recuo na exportação de bens e serviços, mas do lado da importação o encolhimento foi maior. O consumo foi o motor principal da recuperação iniciada em maio.

Na comparação interanual, a boa notícia é o desempenho da indústria, com produção, em setembro, 2,2% maior que a do mês correspondente em 2019. A melhora nesse tipo de confronto ocorreu depois de seis meses de quedas consecutivas.

Para 2019 as projeções do mercado e de fontes oficiais indicam crescimento econômico na faixa de 3% a 3,5%, insuficiente para o País voltar ao nível de produção de 2019. Também na maioria dos países avançados e emergentes será necessário mais de um ano para eliminar a queda de 2020.

Depois dessa primeira fase, muitas economias poderão deslanchar. Isso dependerá do potencial de crescimento de cada país. No caso do Brasil, o baixo investimento em máquinas, equipamentos e obras será uma provável limitação.

Desde o primeiro trimestre de 2000, a taxa de investimento mensal corresponde a 17,9% do PIB. No terceiro trimestre, a relação, segundo a FGV, ficou em 16,4%. Foi mais alta que a média calculada a partir de 2015 (15,6%), mas inferior ao padrão nacional de duas décadas e muito baixa pelos padrões internacionais e para as necessidades brasileiras. O maior desafio será elevar o investimento em infraestrutura. Isso dependerá de concessões e privatizações, duas linhas de ação emperradas no atual governo.

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