Salvar pontes e viadutos

Os estudos indicaram que são 33 os equipamentos que inspiram mais cuidados e, desses, 16 requerem intervenção urgente, porque estão expostos a um risco maior de acidente

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2019 | 03h00

O acidente com o viaduto que cedeu na Marginal do Pinheiros, na altura do Parque Vila Lobos, no dia 15 de novembro do ano passado, e foi liberado ao tráfego após a conclusão da primeira parte da obra de recuperação, que durou 4 meses, deveria servir para levar a Prefeitura a lançar finalmente um ambicioso programa de reforma dos viadutos e pontes da cidade, que estão quase todos em má situação, como é notório. A segunda parte da obra será feita com o viaduto aberto ao trânsito.

Embora o prefeito Bruno Covas tenha agido com rapidez para promover as obras de reparo – e não se poderia imaginar outra reação de sua parte, tendo em vista a importância da via afetada – e de ter determinado a realização de estudos para apontar os viadutos e pontes que se encontram em situação mais perigosa, ainda não parece ser dessa vez que a Prefeitura adotará aquele programa, mesmo que sua urgência seja cada vez maior e mais evidente.

Os estudos indicaram que são 33 os equipamentos que inspiram mais cuidados e, desses, 16 requerem intervenção urgente, porque estão expostos a um risco maior de acidente. É de esperar que as obras de recuperação destes últimos viadutos e pontes sejam iniciadas o quanto antes, porque só a sorte evitou que houvesse grande número de vítimas por ocasião do acidente com o viaduto da Marginal do Pinheiros: ele ocorreu de madrugada, quando é pequeno o movimento naquela via. É fácil imaginar as consequências desastrosas de repetição de acidente parecido num horário de pico. Mas mesmo que, numa previsão otimista, Covas avance bastante a reforma dos 33 equipamentos, isso ficaria distante do que precisa ser feito.

O problema do pouco-caso com que são tratados os viadutos e pontes da capital vem de muito longe. Não é culpa do atual prefeito, mas isso não o exime da responsabilidade de participar da solução do problema. Apesar da enorme importância desses equipamentos, desde que foram construídos – a maioria há décadas – eles nunca receberam manutenção adequada. Alguma coisa é feita, mas em geral de forma esporádica – principalmente quando um acidente faz soar o sinal de alarma – e sempre abaixo do necessário.

Sempre que têm recursos para isso, os prefeitos gostam muito de fazer obras – principalmente viárias, como viadutos e pontes, pela impressão que causam – e inaugurá-las com estardalhaço de olho em seu retorno eleitoral, mas em seguida se esquecem de que elas exigem manutenção contínua ao longo de toda sua vida útil. Não se discute sua necessidade para melhoria do sistema viário, e a grande maioria dos administradores públicos relega os serviços em geral – no caso, o de manutenção – a segundo plano.

A capital paulista oferece, com suas quase duas centenas de pontes e viadutos, um bom exemplo do resultado desastroso a que esse comportamento conduz. Um estudo feito pelo Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) já mostrou a situação preocupante em que se encontram os viadutos e pontes da capital. Em graus diferentes, constatou ele em 2017, todos exigiam algum tipo de intervenção imediata.

O engenheiro responsável pelo trabalho, Gilberto Antonio Giuzio, chamou a atenção na época para um dado importante da questão: a manutenção é uma providência que, além de necessária, redunda em grande economia para o Município. Segundo ele, “o custo de uma obra de recuperação emergencial pode ser 25 vezes maior que o de um trabalho preventivo”. A recuperação do viaduto da Marginal do Pinheiros acaba de dar um bom exemplo do prejuízo que isso acarreta. Além do risco a que o descaso com essa via os expôs, os paulistanos deverão pagar R$ 26,5 milhões para recuperá-la. Uma manutenção adequada teria custado muito menos.

O pouco-caso irresponsável com que são tratados os viadutos e pontes se tornou inaceitável. Já está mais do que na hora de deixar de lado a política de remendos e pôr em execução o quanto antes um plano de recuperação e manutenção desses equipamentos.

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