Sangue-frio na política de juros

Apesar da inflação, o BC evita reduzir o alívio ao Tesouro e o apoio às empresas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 03h00

Pioram as expectativas de inflação e aumentam as apostas numa alta dos juros básicos no meio de 2021, mas os dirigentes do Banco Central (BC) têm motivos para manter o sangue-frio. Um aperto monetário poderia ser desastroso. Causaria enormes problemas ao Tesouro, já superendividado, e reduziria um dos poucos estímulos disponíveis para as empresas. Além disso, o cenário é nebuloso dentro e fora do País. No exterior, a recuperação econômica é ameaçada, no curto prazo, por novos surtos da pandemia. No Brasil, a incerteza sobre o ritmo de crescimento, especialmente com o fim dos auxílios emergenciais, permanece “acima da usual”.

A inflação tem superado as previsões e deve continuar elevada neste fim de ano, mas os choques atuais são “temporários”, segundo o Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, formado por diretores da instituição e responsável pela política de crédito. Esse diagnóstico é um dos argumentos a favor da manutenção dos juros básicos em 2% ao ano.

Com essa decisão, anunciada no começo da noite de quarta-feira, a taxa permaneceu em seu piso histórico. De fato, é uma taxa negativa – menor que a inflação projetada – e nisso se assemelha aos juros definidos por bancos centrais de vários países do mundo rico.

Mas até os membros do Copom mantêm alguma cautela diante dos choques de preços. Embora os descrevam como temporários, vão monitorar sua evolução atentamente, segundo informam em nota divulgada depois da última reunião. Além disso, expectativas de inflação em alta são um risco mencionado em várias passagens do comunicado, embora os autores do texto acabem repetindo o recado tranquilizante: neste momento, as expectativas de inflação de longo prazo permanecem ancoradas.

Ancoradas, talvez, mas com menor firmeza que em outros tempos, e isso poderá implicar mudanças no estilo da política monetária. Os analistas, como assinala o comunicado em linguagem muito mais enrolada, projetam inflação bem mais perto da meta nos próximos anos. Algumas estimativas indicam alta de preços até acima do alvo de 3,5% fixado para 2022. No cenário básico do Copom, destacado no informe, a taxa projetada é de 3,4%.

O “horizonte relevante” para as decisões do Copom atualmente abrange 2022. Esse ano obviamente ganhará importância na formulação da política, nos próximos meses, com o avanço no ano-calendário de 2021. Uma das consequências poderá ser o abandono da forward guidance (prescrição antecipada), um estilo de comunicação adotado a partir de agosto.

Com esse procedimento, o Copom passou a indicar a manutenção dos juros enquanto três condições fossem observadas: projeções de inflação abaixo da meta no horizonte relevante, gestão fiscal responsável e expectativas de longo prazo ancoradas. O BC tem assim oferecido ao setor privado condições para programar suas atividades com maior segurança.

Expectativas de inflação mais próxima da meta tendem a eliminar a folga para a forward guidance. O Copom absteve-se de informar se o estilo de comunicação já será alterado depois de sua próxima reunião, em janeiro. A mudança foi mencionada apenas como possibilidade. Além disso, a alteração poderá ocorrer, segundo o comunicado, sem implicar elevação dos juros. Mas para o mercado será inevitável o retorno ao suspense antes de reuniões do comitê.

O mercado é só um dos destinatários possíveis da mensagem do Copom. As incertezas sobre o crescimento, a política fiscal, as oscilações do dólar e a inflação estão associadas, em primeiro lugar, a indefinições do Executivo, a seus conflitos internos e à fixação do presidente Jair Bolsonaro em seus objetivos pessoais. É notório seu desinteresse em relação a assuntos de governo, exceto quando podem afetar o jogo da reeleição. Pior: é visível sua disposição, só disfarçada ocasionalmente, de sujeitar a administração a suas ambições, se houver brechas para isso. Outro presidente poderia ler a mensagem e, talvez, levar a sério as advertências, mas, para isso, precisaria entender o vínculo entre Presidência e governo.

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