Sem a alavanca do investimento

Nem se atraiu capital para infraestrutura nem se abriu horizonte ao investimento privado

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 03h00

Presente e futuro da economia são afetados pela queda do investimento produtivo, um dos efeitos mais notórios da pandemia. Com a redução da atividade, as empresas perderam receita, a insegurança aumentou e as finanças públicas ficaram muito mais apertadas. Uma das consequências foi a menor aplicação de recursos em máquinas, equipamentos e obras civis e de infraestrutura. Isso se refletiu, de imediato, em maior redução de encomendas à indústria e em perda de milhares de empregos.

No médio e no longo prazos, o principal efeito do investimento – também perdido – seria o aumento do potencial produtivo e de crescimento econômico. Na infraestrutura o total aplicado deve ser R$ 12 milhões inferior ao projetado antes da pandemia, segundo estudo da Inter.B Consultoria noticiado pelo Estado. O total deve ficar em R$ 124,6 bilhões, valor até um pouco superior ao de um ano antes, de R$ 121,4 bilhões, mas com certeza menor que o alcançável numa condição menos anormal.

A soma aplicada em infraestrutura pouco aumentou nos últimos anos, de acordo com o levantamento da empresa de consultoria. O valor real aumentou de R$ 117,3 bilhões em 2017 para R$ 118,3 bilhões em 2018 e pouco mais de R$ 120 bilhões no ano passado. A maior parte do dinheiro, na faixa de 76% a 84% do total, foi proporcionada sempre pelo setor privado. Houve nesse período algo parecido com uma normalização desse tipo de investimento.

Pode-se apontar uma normalização, ou algo parecido, porque entre o final de 2014 e o final de 2016 o Brasil esteve em recessão. Em 2017 a economia voltou a crescer. Nesse ano o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,3%. A mesma taxa foi anotada no ano seguinte, mas em 2019, primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro, o ritmo diminuiu para 1,1%.

A lenta expansão nos dois primeiros anos pode parecer normal. A economia saiu muito débil da recessão, com as contas públicas em mau estado e inflação inicialmente elevada. Além disso, desde 2012 a indústria, principalmente de transformação, dava sinais de enfraquecimento.

Em 2017 e 2018 o governo teve de recompor a disciplina fiscal para conter a deterioração das contas públicas. O Banco Central (BC) precisou elevar os juros, inicialmente, para frear a inflação, e só encontrou espaço para reduzir o aperto monetário a partir de outubro de 2016.

Além disso, o sucessor da presidente Dilma Rousseff enfrentou tentativas de impeachment e outras dificuldades políticas, mas, ainda assim, conseguiu a aprovação do teto constitucional de gastos e de uma importante modernização das leis trabalhistas. Parecia razoável esperar melhores condições econômicas a partir de 2019, com um presidente eleito diretamente e favorecido por maior apoio político.

Mas em 2019 a economia cresceu menos que nos dois anos anteriores, o desemprego continuou alto e só se aprovou, graças à ação de parlamentares, a reforma da Previdência, já madura na gestão anterior. Apesar do apoio anunciado por empresários, o investimento privado continuou fraco. O investimento em infraestrutura se manteve abaixo de medíocre. Além disso, o governo foi incapaz de avançar nas privatizações e de atrair capital para obras públicas.

A aprovação do novo marco do saneamento público foi a única notícia positiva, desde 2019, na área da infraestrutura. Avaliados pela economia, os primeiros 14 meses do atual presidente foram um fiasco, mesmo com juros declinantes e estímulos ao crédito. A partir de março, o 15.º mês, a atividade foi severamente prejudicada pela nova crise.

Com a pandemia é fácil justificar mais um ano ruim. Mas teria havido, na ausência do coronavírus, muito mais dinamismo? Pelas projeções do começo do ano, o PIB cresceria míseros 2% ou pouco mais. Haveria maior investimento? O governo continua sem plano. O ministro da Economia nem sequer se entendeu com o presidente sobre o alcance das privatizações. As decisões de investimento, na área empresarial ou na infraestrutura, são muito mais fáceis quando há balizas e alguma previsibilidade.

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