Sem confiança para empregar

Negócios ainda não receberam impulso significativo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2019 | 03h00

Pior legado da recessão, o desemprego voltou a crescer na virada do ano. Além disso, a qualidade da ocupação continuou muito baixa, com alta informalidade e ampla subutilização da mão de obra. Empresários têm exibido otimismo desde a eleição do candidato Jair Bolsonaro, mas sua confiança tem sido insuficiente para impulsionar os negócios de forma significativa e gerar mais contratações. Mesmo com alguma melhora desde o final de 2018, estimular a oferta de vagas seria ainda uma dura tarefa para o novo governo. Mas até as esperanças mais moderadas foram desmentidas. A desocupação da força de trabalho passou de 11,7% no período de agosto a outubro para 12% no trimestre móvel encerrado em janeiro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Há um componente sazonal nessa piora - o esfriamento dos negócios depois da animação associada às festas de fim de ano. Mas o declínio, desta vez, foi maior que nos dois anos anteriores. Um ano atrás, na passagem correspondente, houve estabilidade na população ocupada e na desocupada, mas neste ano cresceu o número de desocupados, observou o coordenador das pesquisas de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo. Com a redução de postos de trabalho, os desempregados passaram a 12,7 milhões, com acréscimo de 318 mil em relação ao trimestre até outubro. A taxa foi pouco menor que a de um ano antes, quando bateu em 12,2%. Nessa comparação, o número de pessoas desocupadas ficou estável.

A recessão terminou há dois anos, segundo as contas oficiais, mas a reativação da economia tem sido muito lenta e pouco tem favorecido a abertura de postos de trabalho. A melhora das condições de emprego normalmente ocorre com algum atraso em relação à retomada dos negócios, depois de uma crise recessiva.

Essa defasagem tem sido observada em todo o mundo e é bem conhecida. Há nesse movimento um efeito circular. A persistência do desemprego limita o consumo e impõe um freio, muitas vezes moderado, à recuperação. O entrave à recuperação restringe a abertura de vagas. Como o efeito circular é imperfeito, a reativação acaba prevalecendo e a economia volta a funcionar com bom aproveitamento de recursos. Mas no Brasil, desta vez, os entraves têm sido excepcionalmente fortes.

O aumento da confiança observado no começo do governo do presidente Michel Temer foi logo anulado, ou até revertido, quando ele foi acuado politicamente, ameaçado de impeachment e forçado trabalhar com escasso e inseguro apoio parlamentar. Seu programa de reformas foi interrompido depois de duas façanhas muito respeitáveis, a modernização trabalhista e a criação do teto de gastos.

O esforço de ajuste continuou, com muita dificuldade, e o déficit primário, isto é, sem a conta de juros, foi sensivelmente reduzido. Mas o conserto duradouro das contas públicas, condição essencial para uma nova fase de crescimento duradouro, continuou na dependência da reforma previdenciária e de outros ajustes. Cabe ao novo governo, ainda com potencial para mobilizar o apoio necessário, avançar na realização dessa tarefa.

Se for capaz de cumprir essa função, o governo do presidente Jair Bolsonaro poderá criar condições para a expansão dos negócios e do emprego. Neste campo, a agenda é enorme. Os empregados sem carteira assinada são 2,9% mais numerosos que os de um ano antes. Há 27,5 milhões de pessoas subutilizadas. Esse grupo inclui os desempregados, os ocupados por tempo insuficiente e a força de trabalho potencial, formada pelo grupo fora do mercado, mas disposto a se empregar se surgirem oportunidades. O quadro é muito pior que aquele percebido quando se considera só o número de desempregados.

Mas, para criar nos mercados a confiança necessária, o governo precisará de um trabalho político bem melhor que o exibido até hoje, além, é claro, da sempre indispensável competência técnica.

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