Sem emprego há muito tempo

Aumenta a proporção de desempregados há mais de dois anos, o que prejudica sua capacidade de obter nova ocupação

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 03h05

São quase 4 milhões de trabalhadores que não conseguem uma ocupação remunerada há pelo menos dois anos. Para essa parcela expressiva de brasileiros e brasileiras, é como se não houvesse melhoras no mercado de trabalho. Redução do desemprego, aumento do contingente de ocupados, melhora generalizada por faixas de idade ou de escolaridade e por setores de atividade econômica, nada disso alcança esse contingente.

Dramáticas são as consequências imediatas para seu padrão de vida e o de seus familiares. Talvez não tão evidentes, mas bem mais duradouros, são outros efeitos do desemprego prolongado. O afastamento do trabalho por muito tempo provoca desde a perda de habilidades e de autoestima até a potencial condenação do trabalhador nessa situação a ocupar funções cada vez menos qualificadas e que pagam salários menores.

Há um contraste, não tão visível, entre os dados que mostram a recuperação do mercado de trabalho, cujos indicadores começam a se aproximar dos observados antes do início da pandemia, e outros que ainda mostram que, do ponto de vista qualitativo, a recuperação ainda é fraca.

A taxa de desocupação medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE caiu de 14,7% para 11,4% entre janeiro de 2021 e janeiro de 2022. O contingente de ocupados somava 94,1 milhões de trabalhadores em janeiro deste ano, já muito próximo do nível de antes da pandemia (94,5 milhões em janeiro de 2020).

Embora tenha diminuído, ainda é alta a taxa de subocupação e desalento. Também o número de desempregados, de 12,1 milhões de trabalhadores na última pesquisa do IBGE, está caindo, mas continua muito alto. E, entre esses, vem crescendo a fatia dos que não encontram trabalho há pelo menos dois anos.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em sua mais recente Carta de Conjuntura, mostra que a proporção dos desempregados que estão nessa situação há dois anos ou mais é  a maior desde o início da série, em 2012. Alcançou 30,3% dos desempregados no quarto trimestre do ano passado. Essa porcentagem cresce desde o segundo trimestre de 2020, quando a pandemia atingiu duramente o País.

Perda de habilidades e comprometimento de talentos necessários ao desenvolvimento do País, entre outras consequências, afetam a eficiência da economia. Perda do interesse profissional e problemas psicológicos são alguns dos riscos para quem fica muito tempo sem encontrar emprego.

Há outro aspecto do desemprego longo, observado pela técnica do Ipea Maria Andréia Parente Lameiras, uma das autoras do trabalho: “As pessoas menos qualificadas, aquelas que já estão há muito tempo desempregadas, cada vez ficam sobrando mais no mercado de trabalho”.

Políticas de treinamento e de apoio a esse conjunto de trabalhadores serão indispensáveis, assim que o governo federal recuperar o mínimo de responsabilidade e eficácia que, perdidas desde 2019, serão indispensáveis para a superação da crise em que o País mergulhou por causa da pandemia e, agora, da guerra na Ucrânia.

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