Sem limites para beneficiar a base

Carente de uma visão abrangente de governo, Bolsonaro só age para assegurar vantagens aos que considera aliados, como os policiais

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 03h00

A avidez com que o presidente Jair Bolsonaro procura, com recursos do Tesouro e a estrutura do Estado, beneficiar familiares e grupos específicos que lhe demonstrem fidelidade política retrata não apenas sua pequenez como homem público. Mostra como, no exercício do mandato obtido nas urnas, ele não hesita em romper limites da racionalidade e das normas da boa gestão se isso for necessário para garantir-lhe algum apoio de que tanto necessita para tentar a reeleição em 2022. A qualidade da gestão pública, que nunca foi preocupação de Bolsonaro, se deteriora ainda mais e sucessivos problemas são gerados, com impacto negativo de longa duração. A insistência em assegurar reajustes de vencimentos para policiais é apenas mais um exemplo da forma ruinosa como o presidente lida com o dinheiro dos contribuintes.

“Temos que valorizar vocês. Não podemos ficar nos discursos e promessas”, disse Bolsonaro durante evento com policiais rodoviários no Palácio do Planalto. Ele havia convocado uma reunião entre técnicos do Ministério da Economia e as direções da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e do Departamento Penitenciário Nacional para discutir reivindicações salariais desses órgãos.

Bolsonaro tem dado tratamento especial a funcionários da área de segurança. Mas, ao contrário dos militares, os policiais e agentes penitenciários não tiveram ganhos salariais em seu governo. Perder apoio no segmento de segurança pública que considera parte natural de sua base de sustentação parece incomodar particularmente o presidente. Daí sua insistência em assegurar-lhe algum ganho a partir do ano que vem.

Para isso, incumbiu o ministro da Justiça, Anderson Torres, policial federal de carreira, de pressionar o titular da Economia, Paulo Guedes. Em ofício encaminhado a Guedes, o ministro da Justiça pediu que, no Orçamento de 2022, sejam garantidos recursos para o plano de reestruturação das carreiras das Polícias Federal, Rodoviária Federal e Penal. O Ministério da Justiça estima em R$ 2,8 bilhões o custo dessa reestruturação apenas em 2022. Em três anos, o gasto adicional alcançaria R$ 11 bilhões. 

Guedes cedeu. Pediu ao Congresso Nacional a inclusão dessa despesa no Orçamento para 2022, em exame pelos parlamentares.

A séria crise fiscal, que o governo enfrenta recorrendo a meios contestáveis para assegurar verbas para áreas essenciais, por si só, recomendaria no mínimo o adiamento de qualquer reajuste salarial. A pandemia provavelmente continuará a pressionar os gastos públicos também em 2022, o que igualmente exige rigor com outras despesas.

Além do mais, benefícios para determinadas carreiras estimulariam outras do funcionalismo a também reivindicar aumentos. E isso se estenderia rapidamente para os Estados e municípios, num ciclo altamente danoso para as finanças públicas.

As dificuldades financeiras do governo federal já abalam a confiança dos investidores, pressionam a inflação e forçam o Banco Central a apertar ainda mais a política monetária, o que encarece e reduz a oferta de crédito. A atividade econômica, que se desacelera há meses, perde o pouco vigor que ainda tem.

Mas o que mais, realisticamente, se poderia esperar de um governo chefiado por um político que tem imensas dificuldades para compreender seu papel como gestor público? Bolsonaro limita-se a tornar questões de alcance limitado em problemas de Estado. Age como um vereador na Presidência. Procura ajudar motociclistas, isentando-os do pedágio; ou caminhoneiros, acenando-lhes com diesel barato. Ataca demagogicamente a Petrobrás para reclamar da alta dos combustíveis. E, de quebra, ainda encaminha pleitos de seus simpatizantes no cercadinho do Alvorada – na terça passada, por exemplo, pediu ao presidente da Caixa que atendesse uma apoiadora que queria renegociar uma dívida.

O mundo real, no entanto, parece dar-lhe as costas: inflação em alta, economia parando, desemprego e trabalho precário prejudicando a vida de dezenas de milhões de brasileiros. E isso, infelizmente, vai continuar.

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