Sem margem para errar

Pesquisa de opinião sobre Bolsonaro mostra que não há um colchão de apoio popular que permita trapalhadas

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2019 | 03h00

A primeira pesquisa de opinião pública sobre o presidente Jair Bolsonaro mostra que não há um colchão confortável de apoio popular que permita descuidos, omissões e trapalhadas. Para um governo que acaba de estrear – são dois meses desde a posse –, as margens de aprovação são estreitas. Realizada entre os dias 21 e 23 de fevereiro, a pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) é um alerta para o presidente Jair Bolsonaro. É passada a hora de descer do palanque e começar a governar.

Bolsonaro ainda tem o apoio majoritário da população. Em relação ao seu desempenho pessoal, 57,5% dos entrevistados aprovam, 28,2% desaprovam e 14,3% não souberam opinar. Chama a atenção, no entanto, o baixo índice de apoio para um governo com dois meses de funcionamento. Apenas 38,9% dos entrevistados avaliam o governo Bolsonaro como positivo. Para 29% a atual administração é regular, 19% consideram-na negativa e 13,1% não souberam opinar.

A maioria da população está mais otimista com o futuro do País. Por exemplo, 51,3% avaliam que a situação do emprego irá melhorar nos próximos seis meses. Em setembro do ano passado, esse porcentual era de 23,3%. Na atual pesquisa, 28,7% disseram que o emprego continuará igual e 17,2%, que irá piorar.

Também houve melhora na expectativa sobre a renda pessoal. Para 33,8%, a renda mensal pessoal deverá aumentar nos próximos seis meses. No ano passado, esse porcentual era de 21,9%. O maior otimismo também é percebido em relação à saúde, educação e segurança pública.

É inegável, portanto, que a maioria da população deposita confiança no presidente Jair Bolsonaro, o que é um ativo importante para o governo empreender as reformas de que o País necessita. Ao mesmo tempo, para não frustrar essa elevada expectativa, é preciso que o governo produza resultados. A pesquisa revela com muita clareza que a população espera, para os próximos seis meses, uma efetiva melhora da situação econômica e social do País. Não há, assim, tempo a perder com falsas polêmicas, extremismos ideológicos ou discursos de campanha. É hora de um saudável pragmatismo.

A pesquisa indica que o principal desafio destacado pela população é a saúde, seguida da segurança e educação. O principal tema não é, como às vezes se diz, a corrupção. Outro ponto que merece atenção é o fato de que, apesar do apoio ao presidente, a população não compartilha da lista de prioridades de Bolsonaro. Por exemplo, a maioria dos entrevistados (52,6%) desaprovou o decreto que facilitou a posse de arma, uma das principais bandeiras da campanha do candidato do PSL, que foi uma das primeiras medidas do novo governo.

Há melhor percepção da população a respeito da reforma da Previdência. Segundo a pesquisa, 43,4% dos entrevistados aprovam a alteração das regras previdenciárias, porcentual significativo para um tema considerado impopular. Mas é maior o número de pessoas que desaprovam a reforma (45,6%). É mais um dado a confirmar a necessidade de uma comunicação efetiva sobre a reforma da Previdência, bem como de um amplo e intenso trabalho do Executivo com os parlamentares. Se o assunto não for bem trabalhado, a vozeria das redes sociais pode representar um sério obstáculo a uma reforma consistente.

A pesquisa da CNT indica que os percalços desses dois meses de governo Bolsonaro não passaram despercebidos da população. A maioria dos entrevistados (58,3%) acompanhou ou ao menos ouviu falar sobre a exoneração de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência da República, após desentendimento público com Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Vale notar que 56,8% já perceberam que os filhos do presidente Jair Bolsonaro interferem nas decisões do pai, e 75,1% são contrários à influência de familiares sobre o presidente da República em suas decisões de governo. Se Jair Bolsonaro não mudar, há aí um elemento que pode minar sua popularidade. O eleitor elegeu Jair Bolsonaro e espera que ele de fato governe.

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