Sem potencial para crescer

Insegurança criada por Bolsonaro torna difícil aumentar a capacidade produtiva

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 03h00

Sem governo, sem segurança econômica e sem investimento produtivo, o Brasil está condenado a repetir o desempenho pífio dos últimos anos, alternando a rotina da estagnação com alguns voos de galinha. Não há crescimento firme e prolongado sem expansão e modernização do parque de máquinas e equipamentos, sem novas construções, sem melhora da infraestrutura e sem formação de mão de obra competente, produtiva e capaz de se atualizar. Mas o maior obstáculo ao fortalecimento econômico do Brasil está no Executivo federal. Incompetente, irresponsável e insistentemente golpista, o presidente Jair Bolsonaro gera instabilidade, assusta os mercados, torna o horizonte nebuloso e condena o País à estagnação.

Empresários aplicam dinheiro em máquinas, equipamentos e obras quando esperam prosperidade, lucros e novas oportunidades para multiplicar seu capital. Nesse movimento, o emprego se expande, mais salários são pagos, o consumo cresce e aumentam os estímulos à produção. Nada parecido com isso tem surgido no horizonte do Brasil. Se nenhum novo tropeço ocorrer, o Brasil terminará este ano fora do buraco onde afundou em 2020. Para 2020 a expectativa é de mísero crescimento de 1,93%, segundo o boletim Focus divulgado na segunda-feira. Mas essa divulgação ocorreu um dia antes da movimentação golpista de 7 de setembro, quando mais insegurança foi espalhada pelo presidente antidemocrata.

A ressaca no mercado de capitais foi severa na quarta-feira. Até o meio-dia o Ibovespa havia caído 2,92% e chegou a 114.427,74 pontos, enquanto o dólar à vista subira 2,55%, batendo em R$ 5,308, tudo isso em meio a manifestações dos Poderes Legislativo e Judiciário, ameaçados no dia anterior pelo presidente e por seus apoiadores.

O susto foi grande, mas episódios desse tipo têm sido frequentes. O comportamento presidencial, governado por interesses pessoais e familiares, tem sido um fator constante de insegurança econômica, de instabilidade financeira, de tensão no mercado cambial e de pressão inflacionária. O quadro piora quando seguidores do presidente cometem barbaridades, como ocorreu ainda na quarta-feira, quando bolsonaristas tentaram invadir o Ministério da Saúde e ameaçaram jornalistas.

Eventos externos, ligados às bolsas do mundo rico, ao mercado de commodities e à política dos grandes bancos centrais, também afetam as cotações no Brasil, mas os sustos são produzidos principalmente por autoridades nacionais, com destaque para o presidente da República.

É difícil perceber, nesse quadro de confusão, incompetência e insegurança, um estímulo suficiente para elevar o investimento produtivo a algum nível superior à mediocridade habitual. Com o início da retomada econômica, o investimento em capital fixo – máquinas, equipamentos, obras e outros ativos físicos – voltou a 18,2% no primeiro semestre deste ano, mas no segundo recuou para 15,1% do Produto Interno Bruto (PIB). A média a partir do ano 2000 tem sido próxima de 18%.

Na zona do euro a média tem sido próxima de 21%. Em muitas economias emergentes, supera 25%. Na China, tem superado 40% do PIB. Na Índia, em torno de 28%. Nos Estados Unidos, tem oscilado na faixa de 20% a 22%. Nos países mais desenvolvidos a taxa é normalmente menor que nos emergentes. As economias avançadas, no entanto, já operam a partir de uma base material e tecnológica muito superior à da maior parte das emergentes e em desenvolvimento.

Ainda falta um longo percurso para o Brasil atingir o investimento mínimo necessário para dinamizar sua economia. A meta governamental tem sido, há muito tempo, algo próximo de 25%. Seria o ponto de passagem para um novo padrão de crescimento econômico.

Mas ficou mais complicado, há alguns anos, investir em infraestrutura. As contas oficiais pioraram, a poupança pública diminuiu e o governo se tornou mais dependente do capital privado para seus programas. Tornou-se necessário um novo estilo de planejamento e de gestão. A mudança continua incompleta e seria irrealista esperar novos avanços com Bolsonaro na Presidência.

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