Setor externo ainda saudável

Sem grandes perigos à vista, as contas externas são rara e preciosa bênção para o governo

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2019 | 03h00

Ainda saudáveis e sem grandes perigos à vista, as contas externas são uma rara e preciosa bênção para o governo brasileiro. Envolvido em atritos e sem articulação para promover e defender no Congresso seus mais importantes projetos, o presidente Jair Bolsonaro pode trabalhar, pelo menos por algum tempo, sem se preocupar com o risco de uma crise cambial. O investimento direto de US$ 14,27 bilhões neste ano foi mais que suficiente para cobrir o déficit de US$ 7,68 bilhões acumulado em janeiro e fevereiro nas transações correntes. O saldo em vermelho nessa conta permanece muito baixo e facilmente administrável. Em 12 meses, chegou a US$ 13,85 bilhões, soma equivalente a 0,74% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o período. No mesmo intervalo, o investimento direto estrangeiro atingiu US$ 89,51 bilhões, ou 4,77% do PIB. 

Esse valor, 32,20% maior que o contabilizado nos 12 meses terminados em fevereiro de 2018, embute uma notícia muito importante e positiva. Os investidores interessados em negócios de longo prazo – em agropecuária, indústria e serviços – mantêm suas apostas no Brasil, apesar do fraco desempenho da economia desde o fim da recessão de 2015 e 2016.

Em 2017 e 2018, o PIB acumulou expansão de apenas 2,2% e perdeu vigor no trimestre final do ano passado. Em 2019, o ritmo de atividade continua baixo, embora as declarações de confiança dos empresários tenham aumentado depois da eleição presidencial. 

As contas externas devem continuar em bom estado neste ano e no próximo, segundo as projeções mais frequentes no mercado, mas essa avaliação envolve um pressuposto crucial: a aprovação, em prazo razoável, de um bom projeto de reforma da Previdência. Se o governo falhar nessa tarefa, vários indicadores importantes poderão ficar muito mais feios. A inflação baixa, outra bênção herdada pelo presidente Bolsonaro, poderá ser perdida, assim como os juros básicos de 6,50%, historicamente baixos. 

O comércio de bens, um dos grandes itens das transações correntes, continua superavitário, com saldo de US$ 4,79 bilhões no primeiro bimestre. Esse resultado, no entanto, é menor que o de um ano antes, quando o excedente chegou a US$ 5,06 bilhões. A redução ocorreu porque as importações de mercadorias cresceram mais que as exportações. Há um pequeno sinal de alerta nesse dado: se as importações crescem com a atividade em marcha lenta e o desemprego alto, provavelmente crescerão com muito mais vigor se a economia deslanchar.

Não haverá problema, se as exportações também avançarem bem mais velozmente, mas isso dependerá, em boa parte, de maior dinamismo na indústria. A indústria, no entanto, pouco tem investido em expansão e modernização da capacidade produtiva, porque as perspectivas da economia permanecem obscuras. Com menos tuítes e mais governo, o presidente Bolsonaro poderá fortalecer as contas oficiais, liberar verbas para investimentos públicos, derrubar os juros e estimular o empresariado. 

O agronegócio deverá continuar cumprindo um papel central na sustentação das exportações, se o governo evitar novos atritos com parceiros comerciais, a começar pela China e pelos países muçulmanos. 

A conta de serviços, outro grande item das transações correntes, também melhorou neste ano. O déficit no primeiro bimestre, de US$ 4,61 bilhões, foi menor que o de um ano antes, quando chegou a US$ 5,42 bilhões. Isso resultou principalmente da redução do déficit em viagens, de US$ 2,02 bilhões para US$ 1,75 bilhão. Essa mudança é atribuível basicamente à depreciação do real. Se a economia melhorar, o buraco na conta de serviços provavelmente voltará a crescer. Será preciso um superávit maior no comércio de bens para compensar essa evolução. 

O governo nada fez de sério, até agora, para tornar a economia mais competitiva. Não tem sequer mostrado foco nas tarefas mais urgentes. Reservas cambiais de US$ 378,4 bilhões em fevereiro são também um fator de segurança, mas dólares em caixa tendem a sumir quando falta governo. 

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