Setor externo e risco Bolsonaro

Contas externas estão firmes, no meio da crise, mas presidente é um perigo constante

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 03h00

Conhecido como covarde, o capital tem buscado zonas mais seguras, no meio da crise, mas o Brasil ainda recebeu US$ 31,91 bilhões de investimento direto líquido – diferença entre ingressos e saídas – entre janeiro e outubro deste ano. Esse valor é 44,61% menor que o contabilizado nos dez meses correspondentes de 2019. A timidez do investidor também aparece claramente em outras comparações. Nos 12 meses até outubro entraram US$ 43,47 bilhões. No período encerrado um ano antes haviam entrado US$ 74,99 bilhões, 72,51% mais que no período recém-terminado.

Apesar disso, esse dinheiro cobriu com folga, como tem ocorrido há anos, o buraco nas transações correntes, conjunto formado pela balança comercial de mercadorias, pela conta de serviços e pela movimentação de rendas. O déficit ficou em US$ 15,35 bilhões em 12 meses e US$ 7,59 bilhões no ano, valor correspondente a apenas 17,67% do registrado de janeiro a outubro de 2019.

Em outubro houve superávit de US$ 1,47 bilhão. Pela terceira vez consecutiva, e pela sexta no ano, o saldo foi positivo. Não houve buraco para ser coberto pelo investimento direto de US$ 1,79 bilhão registrado no mês.

Também os superávits observados em vários meses de 2020 são explicáveis pela crise econômica ligada à pandemia. Crise, nesse caso, indica ao mesmo tempo a piora nas condições globais e a deterioração da economia nacional.

As exportações de mercadorias, no valor de US$ 174,77 bilhões em dez meses, foram 7,78% menores que as de um ano antes, mas o valor importado, de US$ 133,23 bilhões, encolheu ainda mais e ficou 15,44% abaixo do registrado entre janeiro e outubro do ano passado. Disso resultou um aumento do saldo comercial, de US$ 32,50 bilhões para US$ 41,54 bilhões.

O efeito contabilmente positivo resultou, em parte, de um fato ruim. A redução do consumo, mais intensa na fase de isolamento, e a baixa da produção industrial diminuíram as importações necessárias ao dia a dia das famílias e à operação das empresas. A crise também diminuiu os gastos com viagens ao exterior, aluguel de equipamentos e outras despesas da conta de serviços. Foram afetadas, além disso, remessas de lucros e dividendos, incluídas na conta de renda primária.

Mas a balança comercial de bens foi ainda favorecida por um fator positivo. As exportações do agronegócio continuaram vigorosas e para isso contribuíram as compras chinesas. De janeiro a outubro, segundo o Ministério da Agricultura, o setor exportou produtos no valor de US$ 85,84 bilhões, 5,7% mais que um ano antes, e acumulou superávit de US$ 75,46 bilhões, suficiente para garantir um robusto saldo positivo no conjunto do comércio de mercadorias.

A China, principal destino dessas vendas, absorveu produtos equivalentes a US$ 30,76 bilhões. Logo depois da Ásia, a União Europeia ocupou entre os blocos a segunda posição, tendo proporcionado ao agronegócio brasileiro, em dez meses, uma receita de US$ 13,86 bilhões.

O bom desempenho comercial do agro foi mantido, em 2020, apesar do presidente Jair Bolsonaro, de seu filho Eduardo e dos ministros do Meio Ambiente e de Relações Exteriores. Com sua desastrosa política ambiental, propícia a devastações, o Executivo brasileiro confronta as políticas de governos mais comprometidos com a preservação, fornecendo argumentos aos protecionistas.

Além disso, o presidente Bolsonaro insistiu, até há poucos dias, em se alinhar a seu guru Donald Trump, derrotado na recente eleição americana, contra a China. Seu filho Eduardo, deputado federal, tem seguido a mesma linha, tendo voltado, há dias, a postar em rede social uma provocação infantil e inteiramente despropositada às autoridades chinesas.

Os erros de Bolsonaro já têm afastado investidores e alimentado a instabilidade cambial. Mas as contas externas têm resistido à crise global sem danos muito graves, até hoje, e sem risco de problemas de solvência. Mas ninguém pode ficar tranquilo diante da desorientação e da irresponsabilidade de um presidente amplamente despreparado para o cargo.

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