Sinais mistos na prévia da inflação

Alta de preços perde impulso, mas variação acumulada é grande e há muita incerteza

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2021 | 03h00

O aumento de preços, tormento para a maioria das famílias, perdeu impulso desde março, a julgar pelos últimos dados, mas é muito cedo para qualquer conversa otimista. O desemprego é alto, o dinheiro é curto mesmo para quem tem trabalho e, além disso, dezenas de milhões ainda precisam do auxílio emergencial. A cesta de consumo ficou 0,60% mais cara no período entre 16 de março e 13 de abril, segundo a prévia da inflação oficial, também conhecida como IPCA-15, sigla do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15. Em março esse indicador havia subido 0,93%. Houve altas em sete dos nove grupos de bens e serviços incluídos na pesquisa recém-divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A alta de preços continua preocupante, apesar do recuo mensal do IPCA-15. O aumento acumulado em 12 meses passou de 5,52% para 6,17%, mas essa média esconde alguns detalhes muito feios. Para a maior parte das famílias, o mais feio de todos é o encarecimento da comida nesse período. O custo do item alimentação e bebidas subiu 12,17% no intervalo de um ano.

O preço do cardápio básico do brasileiro disparou. O grupo cereais, leguminosas e oleaginosas, onde se incluem arroz e feijão, encareceu espantosos 48,70% nesse intervalo de um ano. Obviamente puxado pela cotação internacional da soja, o conjunto óleos e gorduras ficou 51,77% mais caro. Com recuo de 1,17% em 12 meses, só a educação, entre os nove grandes grupos de bens e serviços, ficou mais acessível nesse intervalo.

É preciso levar em conta as altas ou baixas acumuladas em períodos de vários meses para avaliar com algum realismo o cenário dos preços. Com variação de 0,36%, o item alimentação e bebidas subiu menos, no período coberto pelo IPCA-15 de abril, do que habitação, artigos de residência, saúde e cuidados pessoais e transportes. Mas o consumidor continuou pagando, no mercado, na feira e no açougue, preços já muito inflados pela sucessão de aumentos em vários meses. Além disso, o custo de comida e bebida voltou a ganhar impulso. O indicador de março havia mostrado uma alta de 0,12%, um terço da taxa observada no mês seguinte.

Para os consumidores e para os analistas do mercado financeiro, as perspectivas continuam muito ruins. Em abril, a expectativa de inflação para 12 meses, medida pela mediana, chegou a 5,6%, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Essa taxa, 0,1 ponto mais alta que a apurada em março, foi a maior desde outubro de 2018. A pior expectativa, de 6,4%, foi apontada pelas pessoas da faixa de renda mais baixa (até R$ 2.100 mensais). Na faixa mais alta (acima de R$ 9.600), os consultados disseram esperar inflação de 5,2% no período de um ano.

No caso do grupo com menores ganhos, a avaliação mais sombria parece refletir a experiência de um longo período de grandes aumentos do custo da alimentação. A comida tem maior peso nos orçamentos mais modestos e a alimentação deixa pouco espaço para outras despesas.

No mercado, as projeções de aumento do IPCA em 2021 têm subido seguidamente. Na última pesquisa Focus, a mediana das expectativas atingiu 5,01%. Quatro semanas antes ainda estava em 4,81%. A inflação esperada para o ano tem estado bem acima da meta oficial deste ano (3,75%). Além disso, permanece o risco de ultrapassagem do limite superior de tolerância, de 5,25%.

A inflação tem sido impulsionada pelas cotações internacionais de produtos básicos, como soja, minério de ferro e petróleo, e também pelo dólar caro. A valorização da moeda americana em relação ao real é explicável basicamente pela insegurança dos investidores diante das tensões políticas, das incertezas quanto à pandemia e da insegurança sobre o futuro das finanças oficiais e, de modo especial, da dívida pública. As confusões sobre o Orçamento federal têm sido uma das causas mais óbvias dessa insegurança. Afetando o dólar, as trapalhadas do governo acabam mexendo nos preços e complicando o esforço de milhões para levar comida à mesa.

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