Sinais mistos nas contas externas

Comércio e contas externas exigem profissionalismo

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2019 | 03h00

Com reservas de US$ 374,7 bilhões, balança comercial com amplo superávit e ingresso ainda robusto de investimentos estrangeiros diretos, o presidente Jair Bolsonaro recebe as contas externas do País em condições bem satisfatórias, mais um legado positivo do governo de Michel Temer. O investimento direto de US$ 88,3 bilhões é dinheiro suficiente para cobrir seis vezes o déficit de US$ 14,5 bilhões nas transações correntes. O volume de reservas proporciona segurança em relação à dívida externa. Do lado do balanço de pagamentos, nenhuma grande pressão imediata se manifesta – um importante dado favorável para um governo forçado a enfrentar, desde o primeiro mês, o mau estado das finanças públicas e o desafio da reforma da Previdência. Mas, apesar desses números, a equipe econômica deve dar atenção a alguns sinais de perigo no balanço de pagamentos de 2018.

O primeiro sinal de alerta aparece no comércio de bens. As exportações ainda superaram as importações por uma diferença de US$ 53,6 bilhões, um resultado satisfatório, embora inferior ao do ano passado, quando o superávit comercial chegou a US$ 64 bilhões.

Isso ocorreu porque o valor faturado com as vendas ao exterior, de US$ 239 bilhões, foi 10% maior que o de 2017, enquanto o dispêndio com os bens importados, de US$ 185,4 bilhões, foi 21% maior que o do ano anterior. Isso se explica em parte por um fator positivo: a economia cresceu mais do que um ano antes e a demanda por bens estrangeiros aumentou sensivelmente. Mas é muito recomendável dar atenção a esse descompasso.

No Brasil, um sólido superávit comercial é sempre necessário para compensar o déficit nas contas de serviços e de rendas. Essa característica do balanço de pagamentos brasileiro poderá ser superada algum dia, mas ainda vai perdurar, com certeza, por vários anos.

É essencial, portanto, dar atenção às condições enfrentadas pelos exportadores, especialmente quando persistem sinais de deterioração no mercado global. Isso decorre principalmente do conflito entre os governos americano e chinês. O volume global de comércio foi afetado em 2018 e poderá ser mais prejudicado em 2019, se as tensões perdurarem.

É fundamental o governo manter-se atento a riscos e a oportunidades, mas é sobretudo imperioso evitar perdas decorrentes de erros políticos. A Arábia Saudita, importante compradora de carne de aves, descredenciou há poucos dias cinco frigoríficos brasileiros, numa evidente resposta ao plano do governo Bolsonaro de mover a embaixada em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém. Nenhum critério racional justifica essa mudança e o mais elementar pragmatismo comercial a torna desaconselhável.

Antes da posse do presidente Bolsonaro houve também um começo de desentendimento com o governo chinês, motivado por declarações descuidadas do vencedor da eleição brasileira. A China é o principal mercado importador de produtos básicos brasileiros. Desconhecer esse detalhe é um sintoma de despreparo para ações de alcance internacional. O governo deve estar pronto para agir com firmeza e até dureza quando o interesse político ou econômico do País o exige. Ações e palavras impensadas são incompatíveis com o exercício da função pública.

Finalmente, é preciso dar atenção aos sinais de insegurança dos investidores internacionais. Em 2018, chegaram a US$ 12 bilhões as saídas líquidas de dinheiro aplicado em ações, fundos de investimento e títulos de renda fixa negociados no mercado interno. No ano anterior, registrou-se ingresso líquido de US$ 226 milhões. Tensões internacionais podem explicar total ou parcialmente as saídas ocorridas em 2018. Em qualquer caso, é preciso pensar em como manter o Brasil como um destino atrativo para capitais de todos os tipos. Isso exige um preparo muito maior que o exibido pelo presidente Bolsonaro em Davos, na semana anterior.

Contas externas fechadas com sucesso em 2018 são um bônus inegável. Não justificam, no entanto, amadorismo no tratamento do comércio e das finanças internacionais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.