Sonhos amazônicos

O sonhos do papa para uma 'ecologia integral' acolhem os sonhos socioambientais seculares e os transcendem rumo a um matrimônio pleno entre o Céu e a Terra pelo encontro com Jesus Cristo

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2020 | 03h00

Quase cinco anos após a publicação da encíclica Laudato si’ sobre a questão socioambiental, o papa Francisco consolidou a posição doutrinal da Igreja na Exortação Querida Amazônia, suscitada pelo Sínodo da Amazônia.

O destino da floresta amazônica tem ressonância universal. Como disse o diretor de comunicação do Vaticano, Andrea Tornielli, “as dinâmicas que ali se manifestam antecipam desafios já próximos a nós: os efeitos de uma economia globalizada e de um sistema financeiro cada vez mais insustentável na vida dos seres humanos e do meio ambiente; a convivência entre povos e culturas profundamente diversos; as migrações; a necessidade de proteger a criação, que corre o risco de ficar irremediavelmente ferida”.

Ante esses desafios o papa expôs seus quatro “sonhos” – o social, o cultural, o ecológico e o eclesial – numa progressão sinfônica que busca harmonizar motivos opostos, mas não antagônicos: a conservação ambiental e o progresso social; as tradições locais e os valores universais; a indignação com a agressão aos nativos e seu ecossistema e o fascínio com os reflexos da beleza do Criador em sua criação.

“Uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres”, já dissera Francisco na Laudato si’. A nada serve um conservacionismo “que se preocupa com o bioma, porém ignora os povos amazônicos”. Nas palavras do seu predecessor, Bento XVI, “ao lado da ecologia da natureza, existe uma ecologia que podemos designar ‘humana’, a qual, por sua vez, requer uma ‘ecologia social’.”

O papa denuncia a “falsa mística amazônica” tecnocrática e consumista que vê na floresta um enorme vazio a ser preenchido. “Às operações econômicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazônia e desrespeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime.” Mesmo os missionários cristãos, em que pese a sua abnegação na luta pela dignidade dos indígenas, nem sempre estiveram ao lado dos oprimidos, obrigando o pontífice a pedir perdão pelas ofensas da Igreja e pelos crimes cometidos em seu nome desde a chamada conquista da América.

Mas Francisco também deixa claro que o respeito à autonomia dos indígenas não pode significar um mero absenteísmo. “A identidade e o diálogo não são inimigos. A própria identidade cultural aprofunda-se e enriquece-se no diálogo com os que são diferentes, e o modo autêntico de a conservar não é um isolamento que empobrece.” Por isso o indigenismo que a Igreja propõe não é “completamente fechado, a-histórico, estático, que se negue a toda e qualquer forma de mestiçagem”. No mesmo diapasão, o trabalho missionário deve promover conquistas sociais, mas não pode se resumir a elas. A Igreja não pode ser “mais uma ONG”, mas deve promover uma inculturação “que nada despreza do bem que já existe nas culturas amazônicas, mas recebe-o e leva-o à plenitude à luz do Evangelho”.

Para tanto, os bispos são chamados a cultivar a espiritualidade missionária, o protagonismo dos leigos e novos espaços às mulheres. A respeito da proposta colateral, mas de alto impacto midiático da ordenação de homens casados, o pontífice não se pronunciou. Mesmo que tivesse essa disposição, seria temerário modificar uma disciplina milenar com base num sínodo regional de menos de 200 bispos e meia dúzia de cardeais sem sequer consultar os mais de 5.000 bispos e centenas de cardeais do resto do mundo.

Os sonhos do papa para uma “ecologia integral” acolhem os sonhos socioambientais seculares e os transcendem rumo a um matrimônio pleno entre o Céu e a Terra através do encontro com Jesus Cristo. O Brasil, principal guardião da floresta amazônica, com a maior população de católicos do mundo, tem um papel decisivo na transubstanciação desses sonhos em realidade.

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