Subserviência a Trump no 5G

Governo segue linha trumpista contra Huawei e despreza interesse nacional

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2020 | 03h00

Derrotado nos EUA, o presidente Donald Trump continua mandando no governo da segunda maior economia das Américas. Incapaz de entender o resultado da recente eleição norte-americana, o presidente Jair Bolsonaro insiste em seguir seu líder, sujeitando à sua orientação os interesses diplomáticos e econômicos do Brasil. Em mais uma demonstração de fidelidade, o presidente brasileiro busca uma forma legal de limitar a participação chinesa, por meio da fabricante Huawei, na implementação da rede 5G no País.

A ideia, segundo apurou o Estado, é estabelecer uma barreira com base em requisitos técnicos de segurança, disfarçando o objetivo de restringir a concorrência. Empresas brasileiras de telecomunicações já se manifestaram contra a limitação.

A sujeição à política trumpista já havia sido evidenciada mais uma vez, sem a preocupação de disfarce, em mensagem postada em rede social, no dia 23 de novembro, pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro. O governo Jair Bolsonaro, afirmou o deputado, “declarou apoio à Aliança Clean Network, lançada pelo governo Trump, criando uma aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China”.

A embaixada chinesa repudiou as palavras de Eduardo Bolsonaro e acusou-o de solapar a relação bilateral. O presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, deputado Fausto Pinato, chamou de irresponsável o filho do presidente e lembrou a importância do mercado chinês para as exportações brasileiras. O diplomata Roberto Abdenur, ex-embaixador nos EUA e na China, apontou “imensa irresponsabilidade” e falou do risco de “graves danos” a interesses comerciais brasileiros.

A desastrada mensagem de Eduardo Bolsonaro foi apenas mais uma demonstração de subserviência. Ele já havia posado para foto, em Washington, usando um boné de campanha pró-reeleição de Donald Trump. Quando um parlamentar brasileiro se exibe como cabo eleitoral de um presidente estrangeiro, dificilmente qualquer de suas impropriedades causará surpresa.

Não surpreenderá, mas poderá prejudicar seriamente o Brasil. Seu único efeito positivo é eliminar qualquer dúvida sobre a sujeição – sua e de seu líder imediato, o presidente Bolsonaro – a um governante de outro país.

Não se trata, é importante distinguir, de um alinhamento ou de uma aliança entre dois Estados, mas da subordinação de um chefe de governo ao chefe de governo de outro país, um caso de sujeição pessoal. O recém-eleito presidente dos EUA, Joe Biden, poderá manter a rivalidade comercial e tecnológica com a China, mas a posição do presidente brasileiro foi definida a partir de uma orientação pessoal de Donald Trump.

Alertadas sobre a disposição do presidente Bolsonaro de limitar a concorrência no caso da tecnologia 5G, empresas brasileiras já se manifestaram. Posições contrárias à restrição foram indicadas pela Conexis Brasil Digital (representante das operadoras Vivo, Claro, Tim e Oi) e pela Federação Nacional de Instalação e Manutenção de Infraestrutura de Redes de Telecomunicações e Informática (Feninfra). A Huawei já tem participação importante no sistema brasileiro de telecomunicações. Sua substituição por outros fornecedores de equipamentos poderá encarecer a implantação do sistema 5G, alertam as empresas. A melhor solução, insistem, é permitir ampla concorrência para atendimento a todos os tipos de demanda.

O presidente Bolsonaro, seus filhos e o ministro de Relações Exteriores têm com frequência ignorado os interesses diplomáticos e comerciais do Brasil. Criaram situações de conflito com parceiros comerciais importantes, como a China, a União Europeia e países muçulmanos.

Em várias ocasiões foi preciso cuidar dos danos causados por ações desastradas e incompetentes dessas figuras. O despreparo do presidente e de figuras do seu entorno pode explicar muitos de seus erros sem, no entanto, justificá-los. O ministro da Economia sabe dos planos de restrição à concorrência na implantação da tecnologia 5G. Alertar o presidente para evitar mais esse erro será, no mínimo, uma demonstração de autorrespeito.

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