‘Surpresa’ inflacionária força duro ajuste

Depois do salto dos preços, aumenta a especulação acerca de juros muito altos dificultando a recuperação dos negócios

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2022 | 03h00

Encarregado de vigiar e conter a inflação, o Banco Central (BC) foi surpreendido pela alta de preços em março, segundo admitiu, com notável franqueza, o presidente da instituição, Roberto Campos Neto. Com alta de 1,62%, o indicador oficial superou todas as marcas para o mês de março desde 1994, ano de implantação do Plano Real, e acumulou variação de 11,30% em 12 meses, uma das maiores taxas do mundo. Surpresas também têm ocorrido em outros países, segundo Campos Neto. Com ou sem surpresa, resultados notáveis têm sido contabilizados nos Estados Unidos, onde os preços ao consumidor subiram 8,50% nos 12 meses terminados em março, completando a maior elevação anual desde 1981. Na maior economia do mundo e na maior da América Latina, a terapia anti-inflacionária, tudo indica, será um aperto monetário bem mais severo e doloroso do que se previa no começo do ano.

Com a guerra na Ucrânia e as sanções aplicadas à Rússia, aumentaram as incertezas sobre o comércio internacional, as cotações de alimentos e minérios, a evolução dos custos de produção e a variação dos preços ao consumidor. Os efeitos econômicos da guerra somam-se às consequências, ainda sensíveis, dos desarranjos na produção de insumos e nas cadeias de distribuição ocasionados pela pandemia de covid-19. Mas seria impróprio descrever todos os desajustes de hoje, especialmente na área dos preços, como efeitos combinados da ação do coronavírus e da truculência internacional do presidente russo, Vladimir Putin.

O surto de inflação no mundo capitalista é em parte atribuível à enorme expansão monetária facilitada, nos últimos anos, por bancos centrais do mundo rico. Merece destaque, nesse balanço, o Federal Reserve (Fed). A política do Fed, guardião do dólar, moeda oficial da maior potência econômica do mundo, afeta as condições de financiamento e o movimento de recursos nos principais mercados. O Brasil também é afetado e as decisões tomadas pela autoridade monetária americana são relevantes, também, para deliberações sobre o custo do crédito no Brasil.

Depois de anos de política frouxa, o aperto monetário apenas começa, nos Estados Unidos. O novo informe da inflação, divulgado na terça-feira, favorece a expectativa de um forte ajuste dos juros nos próximos meses. No Brasil, a hipótese de apenas mais um aumento da taxa interna, de 11,75% para 12,75%, foi abandonada por muitos analistas do mercado, talvez por todos.

Essa hipótese foi estabelecida pelo próprio BC. Um novo ajuste de um ponto porcentual ocorreria em maio, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), e isso encerraria a série de ajustes. Completado o aperto, as autoridades ficariam à espera dos efeitos. O resultado principal, do ponto de vista dos membros do Copom, seria uma taxa de inflação, no próximo ano, próxima do centro da meta oficial, fixada em 3,25%, com tolerância de 1,50 ponto para mais ou para menos.

Nem essa previsão é considerada segura por analistas do mercado. Projeções de inflação de algumas instituições financeiras apontam taxas superiores a 7%, bem acima do limite superior de tolerância, de 5%. Em 2021 esse limite, de 5,25%, foi superado com folga pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 10,06%, a principal medida oficial.

Com a piora das expectativas de inflação, multiplicam-se as previsões de juros básicos bem acima de 12,75%. Ao reconhecer um choque imprevisto, o presidente do BC abriu espaço, provavelmente de forma involuntária, para novas especulações sobre a evolução dos juros. Hipóteses de taxa básica de 13,75% ou mesmo de 14% já circulam. Juros altos podem cumprir mais de uma função. Além de frear os preços, podem atrair capital estrangeiro, como têm atraído nos últimos meses, aumentando os dólares disponíveis e favorecendo a revalorização do real. Com isso se neutralizou, pelo menos temporariamente, um fator inflacionário, o dólar sobrevalorizado. Juros maiores, no entanto, deverão atrapalhar ainda mais o consumo, a produção e a urgente criação de empregos.

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