Também a recuperação é desigual

Retomada nos países menos desenvolvidos é difícil, mas é desafio para outros também

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 03h00

A pandemia parece ter estabelecido uma lógica perversa na superação, pelos países, dos males que ela provocou. Aqueles que menos podem e mais sofrem são os que sofrerão por mais tempo.

Não há, por notórias diferenças entre os países quanto à sua evolução econômica, social e política, bem como à capacidade de resposta de suas instituições a emergências e a situações inesperadas, uma relação linear entre grau de desenvolvimento e tempo de recuperação dos malefícios da covid-19. Mas, se submetidos a governos pouco eficazes ou irresponsáveis, com baixa capacidade para enfrentar problemas, países que ostentam indicadores econômicos e sociais melhores do que os dos menos desenvolvidos terão dificuldades semelhantes para retomar o desenvolvimento.

O que o relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) sobre a situação dos países menos desenvolvidos no mundo pós-covid mostra é que, mais desafiadora para esses países, a recuperação exigirá respostas adequadas de todos os demais. Embora seus indicadores o deixem numa situação muito mais confortável do que a dos cerca de 50 países listados pela Unctad em seu estudo, o Brasil tem desafios como os apontados no relatório.

Segundo o organismo vinculado à ONU, o estímulo ao desenvolvimento da capacidade produtiva é a única esperança para os países menos desenvolvidos, pois só por meio da recuperação de sua estrutura de produção esses países poderão superar a crise e alcançar um desenvolvimento sustentável. A Unctad define capacidade produtiva como “os recursos produtivos, as capacidades empresariais e os vínculos de produção que, em conjunto, determinam a capacidade de um país de produzir bens e serviços e lhe permitem crescer e desenvolver-se”.

Em boa medida, para os 46 países considerados menos desenvolvidos pela Unctad, e que abrigam 1,1 bilhão de pessoas, as perspectivas são consideradas “desalentadoras”. Eles dependerão de ajuda internacional para investir no sistema de produção e na preparação de sua população para os desafios do crescimento e do progresso.

Precisarão também suprir deficiências institucionais, econômicas e sociais para alcançar uma trajetória de desenvolvimento. A maioria deles levará vários anos para recuperar o nível econômico (Produto Interno Bruto per capita) que tinha antes da pandemia.

A pandemia mudou o mundo de maneira permanente, o que exige políticas, soluções e respostas capazes de enfrentar o imenso desafio à frente, diz a secretária-geral da Unctad, Rebeca Grynspan, na apresentação do relatório.

Mas há caminhos já abertos que podem ser percorridos. Ampliar a base empresarial por meio de investimentos em capacidade produtiva será indispensável para que as economias desses países estejam preparadas para o crescimento pós-pandemia é um dos  caminhos apontados no relatório da Unctad.

Uma política industrial bem orientada também deve fazer parte de um programa consistente de recuperação da economia dos países menos desenvolvidos. Política industrial, esclareça-se, não significa necessariamente protecionismo ou vantagem tributária, como durante anos se fez no Brasil.

São desafios que se colocam também para países que almejam ocupar posições mais altas numa economia mundial cada vez mais competitiva. Esses países nem sempre souberam responder adequadamente a tais desafios que, por isso, ainda turvam seu horizonte. Mas eles têm outros.

Além de recuperar as perdas impostas pela pandemia, esses países, como o Brasil, precisam ganhar produtividade e competência produtiva para disputar espaços no mercado internacional. No caso brasileiro, o agronegócio soube responder com grande eficiência a esse desafio. Mas a indústria, que perde peso na economia nacional, está perdendo também a corrida mundial. A pandemia exacerbou os problemas de todos.

 

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