Tecnologias de ponta nas bases sociais

Startups de países em desenvolvimento podem diminuir a distância entre ricos e pobres

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2020 | 03h00

Se o coronavírus impacta mais alguns grupos de risco - pessoas idosas ou com comorbidades -, a contração econômica precipitada por ele também atinge desproporcionalmente alguns segmentos sociais - pobres e jovens. A pandemia está agravando as desigualdades em todo o mundo. No Brasil, este impacto agudo atinge uma sociedade já vulnerada por mazelas crônicas. O País, um dos mais desiguais do mundo, com serviços públicos custosos e ineficientes, se recuperava a duras penas da pior recessão de sua história. Some-se a isso o clima de tensão permanente provocado por um presidente negacionista, cuja resolução de governar exclusivamente para seu eleitorado e barganhar acordos que garantam sua sobrevivência no cargo suscita constantes atritos com as instituições da República. Neste cenário, é alentador descobrir que o pioneirismo tecnológico da iniciativa privada pode pôr soluções para chagas sociais literalmente na palma de nossas mãos.

Todos os anos o Fórum Econômico Mundial elenca 100 novos pioneiros tecnológicos de todo o mundo. Além de projetos que buscam responder à covid-19, o pelotão deste ano inclui, entre outros, lideranças na captura de carbono, economias circulares, segurança alimentar e acesso financeiro. Na Índia, por exemplo, a plataforma ZestMoney emprega algoritmos para prover crédito barato a milhões de pessoas incapazes de obtê-lo no sistema financeiro tradicional. O mercado digital Twiga, do Quênia, tem reduzido custos com comida na África conectando diretamente os negócios para otimizar a cadeia de fornecimento.

Entre os pioneiros cotejados pelo Fórum figuram dois brasileiros. A CargoX permite que caminhoneiros rastreiem antecipadamente coletas e entregas, ao invés de caçar fretes nas paragens de caminhões. Com o alinhamento digital entre a demanda das cargas e a oferta dos caminhões, os caminhoneiros aumentam seus ganhos e os remetentes reduzem seus gastos. O Descomplica é uma plataforma que oferece a milhões de estudantes mais de 70 mil cursos online. Os alunos gastam em média uma hora por aula, ao menos três vezes por semana, melhorando em cerca de 45% seu rendimento nos exames nacionais.

Numa reportagem sobre as empresas que crescem mais rápido nas Américas, o Financial Times destacou os empreendimentos tecnológicos brasileiros focados em soluções para comunidades carentes. O grupo de comércio social Facily viabiliza uma plataforma para que consumidores de baixa renda se congreguem para fazer compras online com descontos expressivos. O Pravaler oferece um sistema de financiamento online que permite a estudantes custear mensalidades que normalmente não estariam ao alcance de sua renda. Cerca de 55% dos seus clientes são os primeiros membros de suas famílias a cursar o ensino superior. O Alicerce é uma startup educacional que oferece tutorias a baixo custo. Num país em que 40% dos cidadãos não concluem o ensino secundário e 12 milhões são analfabetos, esses sistemas podem ter um impacto significativo.

Empreendimentos como esses têm a virtude de combinar impacto social com lucratividade. Entre setembro e fevereiro, o número de usuários do Facily aumentou cerca de 20% por semana. Entre 2015 e 2018, o Pravaler cresceu anualmente 39%. Em 2018, o nível de financiamento em startups como essas atingiu US$ 1,3 bilhão, 50% mais do que em 2017 e 370% a mais do que em 2016.

Atualmente, seria irrealista pretender que o ecossistema tecnológico brasileiro dispute com o Vale do Silício ou a China. Mas, se nesses lugares os gigantes tecnológicos estão diminuindo a distância entre a Terra e as estrelas, as startups do Brasil e outros países em desenvolvimento podem fazer algo em certo sentido até mais valioso: diminuir a distância entre ricos e pobres. Como disse Marcos Toledo, sócio de um fundo de capital de risco, “ao invés de pensar em foguetes espaciais, os pioneiros devem focar nos imensos problemas do Brasil, onde as pessoas não têm acesso a serviços básicos. A grande viagem interestelar para um pioneiro aqui é solucionar o setor de educação ou saúde”

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