Tecnologias na educação

Inovações tecnológicas são bem-vindas, mas o papel do professor é essencial

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 03h00

Ninguém se pergunta se escolas funcionam melhor com ou sem livros didáticos. A questão é de quais livros se fala. Similarmente, não cabe indagar até que ponto quadras poliesportivas melhoram o rendimento em matemática ou português. A educação física tem um valor em si. “Da mesma forma”, diz o instituto Todos Pela Educação, “tecnologias de criação e experimentação devem ser vistas como um direito e não uma maneira de impulsionar notas em outras disciplinas.” Em plena 4.ª Revolução Industrial – exponencialmente acelerada pela pandemia – “não se trata mais de questionar ‘se’, mas ‘como’ utilizar a tecnologia na escola”.

Para elucidar o desafio, o Todos pela Educação, em parceria com o grupo D3E e o Transformative Learning Technology Laboratory, da Universidade de Columbia, desenvolveu o estudo Tecnologias para uma Educação com Equidade

A base é o investimento em infraestrutura tecnológica. Isso implica antes de tudo insumos como internet, computadores e laboratórios. O Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações deve prover acesso pleno à internet em todas as escolas públicas. Adicionalmente, fundos e taxas arrecadados no setor de telecomunicações podem mitigar a exclusão digital nos domicílios dos estudantes. Também é essencial desenvolver políticas para aquisição, manutenção e atualização de tecnologias educacionais.

Outro eixo complementar é a formação de professores e gestores. Na Base Nacional Comum para a Formação de Professores da Educação Básica, de 2019, as tecnologias ainda são um tema periférico. Mas elas devem ser encaradas como recursos intrínsecos à docência. Deve-se encorajar o professor a ser, a um tempo, um designer de experiências de aprendizagem; um curador crítico de conteúdos; e um pesquisador. Isso implica, por parte das redes de ensino, o fornecimento de “kits” de trabalho e a contratação de programas de formação continuada por especialistas. O mesmo vale para os gestores.

Compreender e desenhar tecnologias educacionais envolve múltiplos campos do conhecimento. Por isso, é essencial fomentar a colaboração academia-escola por meio de centros de pesquisa interdisciplinares que atraiam pesquisadores de outros setores para a educação. Analogamente, as Secretarias da Educação devem estabelecer redes de colaboração com empreendedores da área tecnológica.

Para otimizar esses processos, o País precisa elaborar uma estratégia nacional em tecnologia educacional. Como constatou a pesquisa, as ações atuais são caracterizadas por ideias e projetos efêmeros, muitas vezes encaixados em planos ou estratégias para outras áreas, como a formação de mão de obra. 

Órgãos como o BNDES, o Ministério da Ciência e Tecnologia ou o Comitê Gestor da Internet têm planos de fomento. “No entanto, educadores, pesquisadores e redes de ensino – com o apoio da gestão pública, do terceiro setor e de entidades de representação – são os atores com mais condições de organizar um plano nacional para guiar o setor público e a sociedade civil no desenvolvimento de práticas educacionais que envolvam novas tecnologias.”

Por isso, os autores da pesquisa propõem a criação de um fórum, de uma escola nacional e de laboratórios de práticas em tecnologia e educação, pautados pela equidade, participação, continuidade, acompanhamento e internacionalização.

Pelo que se depreende da pesquisa, o Brasil já possui bons recursos em termos de experiências e pesquisas educacionais, empresas de tecnologia, políticas inovadoras e conteúdos desenvolvidos para a educação básica. Mas estes recursos se encontram dispersos e desconectados. O desafio é criar um ecossistema orgânico e resiliente.

É um desafio excitante para todos aqueles envolvidos com a educação. Mas, por isso mesmo, é importante não se deixar seduzir por quimeras tecnocráticas. A tecnologia oferece possibilidades formidáveis para potencializar a mediação humana, mas jamais poderá substituí-la. A educação do futuro, assim como a do passado, só dará mais e melhores frutos com o cultivo e o fortalecimento da sua raiz: o professor. 

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