Terror em Araçatuba

Uma boa política de segurança pública é essencialmente preventiva

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 03h00

As Polícias Civil e Militar do Estado de São Paulo são as forças de segurança pública tidas como as mais bem preparadas e equipadas do País. Há razões para a boa reputação de ambas as instituições. Portanto, custa crer que, com os recursos humanos e materiais que têm à disposição, não tenham sido capazes de impedir uma ação criminosa como a que fez a população de Araçatuba, a 521 km da capital paulista, viver horas de terror na madrugada de domingo para segunda-feira.

Está claro que não houve um trabalho policial de inteligência – se houve, obviamente falhou – para evitar mais um assalto nos moldes do que ficou conhecido como “novo cangaço”, tipo de crime, cada vez mais ousado e violento, que tem levado pânico aos moradores de pequenas e médias cidades, principalmente nas Regiões Sul e Sudeste.

Uma quadrilha de pelo menos 15 bandidos fortemente armados invadiu a cidade do interior paulista para roubar três agências bancárias. Cerca de dez carros foram usados na ação, além de um caminhão e um carro-forte. Bombas foram espalhadas pelos criminosos em pontos específicos da cidade. Veículos foram incendiados para impedir a movimentação da polícia. Do alto, um dos bandidos monitorava por drone toda a circulação dos policiais locais, orientando a ação dos comparsas, tanto na chegada do comboio em Araçatuba como na fuga. Como se vê, trata-se de um crime planejado com tempo e minúcia, executado por profissionais que dispunham de meios que não são triviais nem mesmo em ações semelhantes. O mais chocante é que bancos federais que haviam recebido grandes reservas em numerário não comunicaram o fato à Polícia estadual para as devidas providências de resguardo e proteção.

De acordo com a Polícia Militar, três pessoas morreram, um bandido e dois moradores. Um destes foi o dono de um posto de gasolina sumariamente executado ao ser surpreendido filmando a ação dos criminosos. Um homem teve a perna decepada ao passar de bicicleta sobre um artefato explosivo deixado pelos bandidos.

Os criminosos tomaram moradores como reféns durante a fuga. Nas redes sociais, circulam vídeos de fileiras de civis que serviram como “escudo humano”, além de chocantes imagens de pessoas que foram amarradas nos tetos e capôs dos carros em fuga a fim de impedir uma reação mais incisiva dos policiais.

O prefeito de Araçatuba, Dilador Borges (PSDB), acionou o governador João Doria (PSDB) ainda durante a madrugada de segunda-feira. O governador determinou o reforço do contingente policial na cidade. Em entrevista à Rádio Eldorado, o porta-voz da Polícia Militar informou que 380 homens foram mobilizados para combater os criminosos. Além dos PMs locais, outros vieram de Bauru, São José do Rio Preto e Presidente Prudente. Dois bandidos foram presos até o momento.

A ação dos criminosos em Araçatuba deve ser rigorosamente investigada. Não se executa um assalto daquela magnitude, com tamanho desassombro, sem uma ampla rede de apoio, informacional, logístico e, sobretudo, financeiro. Especialistas em segurança pública estimam que o planejamento e a execução de um assalto como o que houve em Araçatuba não custam menos de R$ 1 milhão para os criminosos. Há quem forneça os meios materiais, como as armas, explosivos, veículos e equipamentos de comunicação. Há quem planeje e coordene a ação. Há quem proveja informações, tão valiosas neste tipo de crime. Como os bandidos sabiam que encontrariam grande quantidade de dinheiro nas agências atacadas? Como conheciam o dispositivo policial contra o qual teriam de lidar? Tudo deve ser apurado e os suspeitos devem ser investigados e julgados.

Poucas e efetivas ações podem ser implementadas para coibir este tipo de crime, que não necessariamente passam pelo reforço bélico das corporações, bem equipadas, como já dito. Estas ações vão desde o tingimento de cédulas até sofisticadas análises de serviços de inteligência. Uma boa política de segurança pública é essencialmente preventiva.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.