Tiros no pé

Ventos econômicos favoráveis estão sendo desperdiçados pela cupidez política

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 03h00

Após um primeiro trimestre mais forte, a retomada econômica do País vem amargando a estagnação. No segundo trimestre, o PIB, puxado por quedas na agropecuária, indústria e investimentos, recuou 0,1%. As previsões para este ano e o próximo estão encolhendo. A aceleração da inflação, a crise hídrica, a recuperação desigual das atividades e a desaceleração global sob as pressões da variante Delta aumentam as incertezas.

Quanto dessas incertezas decorre de fatores estruturais e quanto de fatores conjunturais? Quanto resulta da conjuntura global e quanto da conjuntura nacional? Quanto era inevitável e quanto é uma criação artificial das disputas em Brasília? São algumas das questões enfrentadas no seminário sobre Conjuntura Econômica promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV em parceria com o Estado.

Como diagnosticou José Julio Senna, a erosão dos últimos meses é visível em todos os setores: as estimativas de crescimento são medíocres; o desemprego é persistente; a questão distributiva se agravou; a resposta à crise energética foi tardia e talvez insuficiente. O que agrava tudo é a inapetência do Executivo em relação à administração do dia a dia da economia e seu descompromisso com a disciplina fiscal e uma agenda de reformas.

A inflação é um exemplo da confluência entre fatores da conjuntura global e agravantes fabricados no Brasil. Em todo o mundo, a pandemia inibiu a produção e distribuição de bens, criou gargalos na oferta e desviou a demanda de certos serviços para certos bens. A imprevisibilidade é geral. Mas a inflação no País está bem acima da de seus pares na América Latina. A origem do problema é a mesma, mas os desdobramentos no Brasil foram mais severos, em razão de fatores naturais como a estiagem, mas também econômicos como a depreciação do câmbio. “Combater a inflação num país como o Brasil não é tarefa apenas do Banco Central, mas do governo como um todo”, disse Senna. “Mas o interesse do governo é bastante modesto.”

Outro exemplo é a alta dos juros, que, como apontou Armando Castelar, reflete não só a rotina da política monetária, mas os temores com a saúde fiscal do País. A queda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro sugere que no ano eleitoral a demagogia atropelará a disciplina fiscal. Seu maior adversário e líder nas pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva, declara para quem quiser ouvir ser a favor de demolir o teto e escalar os gastos.

O Congresso poderia reforçar a ancoragem fiscal e colocar as contas públicas ao abrigo do teto. Como apontou Silvia Mattos, o Parlamento foi responsável por conquistas como as reformas trabalhista e da Previdência, os marcos do gás e do saneamento e a Lei da Liberdade Econômica. Mas não colhemos os frutos, porque hoje o Congresso atua mais na “contrarreforma”, debatendo-se em busca da quadratura do círculo, isto é, aumentar investimentos sociais sem cortar gastos obrigatórios. O Executivo tenta excluir os precatórios do teto, enquanto os parlamentares nem sequer cogitam utilizar suas emendas para robustecer o Bolsa Família.

Ante a incerteza crescente, a “âncora”, segundo Senna, seria uma liderança política que, sim, reagisse às pressões corporativas, como é próprio do processo político, mas que soubesse sobrepor os interesses econômicos e sociais sobre os interesses imediatos. Em outras palavras, a tão falada “terceira via”. Mas até o momento ela permanece no campo do desejo, e tudo indica que o “descomunal cabo de guerra político” não acabará em 2022, e se estenderá por 2023 e depois.

Quanto da incerteza econômica foi criado no Brasil? A conclusão do seminário é “muito”. O cenário externo é favorável, o preço das commodities está alto, os juros reais no exterior estão negativos e, internamente, o vírus tem cedido à vacina. Mas “a gente mesmo está criando problema”, concluiu Castelar, que, exprimindo uma certa exasperação, se furtou ao jargão econômico para falar em bom português: “No fundo, o pedido de todos aqui é: vamos parar de dar os tiros no pé que estão vindo da política”.

 

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