Todos contra o mosquito

Após dois anos de relativa retração, o mosquito transmissor da dengue voltou a se proliferar pelo País

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2019 | 03h00

Há décadas o País convive com o Aedes aegypti, inseto transmissor da dengue. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é um dos 30 países que mais sofrem com este “desastre silencioso”. Agora, após dois anos de relativa retração, o mosquito voltou a se proliferar pelo País. O caso é especialmente alarmante, primeiro, porque o verão se aproxima, depois, porque desde os anos 2014 e 2015, quando a incidência da dengue atingiu o nível de epidemia em diversos Estados, o Aedes foi identificado como transmissor também da febre chikungunya e do zika vírus, que pode causar microcefalia em bebês.

Segundo o Ministério da Saúde, houve aumento nas incidências das três doenças. Entre janeiro e agosto os casos de zika aumentaram 47% em relação ao mesmo período do ano passado, com surtos especialmente intensos no Tocantins, Rio Grande do Norte e Alagoas. Já os casos de chikungunya subiram 44%, avançando sobretudo no Rio de Janeiro. 

A maior propagação foi da dengue: 600%. Foi mais de 1,4 milhão de casos de infecções, ou seja cerca de 690 por 100 mil habitantes. Para ter uma ideia, o indicador de epidemia da Organização Mundial da Saúde é de 300 casos por 100 mil habitantes. Apenas no Amazonas e no Amapá houve redução de registros. Entre os demais Estados, pelo menos 14 estão em situação de epidemia. No Sul e no Sudeste a crise é aguda. Em São Paulo a incidência foi 37 vezes (3.712%) maior. No Paraná, 36. O Ministério da Saúde atribui a alta ao aumento das chuvas neste ano na Região Sudeste e sobretudo a alterações entre os 4 tipos de vírus causadores da dengue. Nos últimos anos a circulação estava concentrada nos tipos 1 e 3, mas neste ano houve um surto do tipo 2, aumentando o número de pessoas vulneráveis à infecção. Somadas, as três doenças levaram a 650 mortes (591 por dengue, 57 por chikungunya e 2 por zika).

Com a chegada do verão, o poder público e a sociedade civil precisam se preparar para uma guerra cujas batalhas, por sua própria natureza, só podem ser vencidas em conjunto. A médio e longo prazos, há a necessidade urgente de investir pesadamente no saneamento, área de infraestrutura mais precária do País, em especial na coleta e tratamento de esgoto. Tramitam no Congresso projetos de lei que podem destravar o virtual monopólio das estatais e atrair investimentos privados. É preciso agilizá-los.

Aos municípios, amparados por seus Estados e pela União, cabe mobilizar os profissionais de saúde e, se necessário, de segurança pública para promover a pulverização intensiva e extensiva, inclusive lançando mão de aviões, se for o caso. A fumaça, porém, só mata o mosquito adulto, não atingindo as larvas, de modo que o essencial será realmente a conscientização da população.

Como se sabe, a incidência concentra-se no verão em razão das chuvas, que favorecem o acúmulo de poças d’água. A água parada - limpa ou suja - é o principal foco de reprodução do inseto, de modo que o melhor meio de evitá-la é simplesmente tampar ou esvaziar cisternas, vasos e quaisquer outros recipientes. Trata-se de uma guerra de tensão permanente. Mas as ações preventivas tendem a ser, paradoxalmente, reativas e de curto prazo. A experiência mostra que sempre que a vigilância é relaxada os focos voltam a se proliferar, como agora. Assim, a colaboração da população é o elemento crucial, mas o governo, bem como a imprensa, devem fazer a sua parte, fomentando campanhas ostensivas de alerta. As redes sociais podem ser de grande valia neste esforço.

É tão alentador pensar que a melhor maneira de eliminar a dengue, a chikungunya e a zika é simplesmente evitar o empoçamento de água em recipientes descobertos quanto é desesperador constatar que, na prática, essa medida tão prosaica é negligenciada pela população. Os brasileiros têm à sua frente um teste de cidadania. A população tem contra si um inimigo comum inequívoco. É hora de cada brasileiro mostrar que é capaz de combater por todos, sem precisar ir longe: o primeiro e principal campo de batalha é a sua própria casa.

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