Tragédia educacional na América Latina

Banco Mundial e Unicef estimam que, em razão da pandemia, 4 em cada 5 alunos latino-americanos nãoconseguem ler e interpretar textos no 6.º ano do fundamental

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2022 | 03h00

O atraso da educação na América Latina e no Caribe, problema anterior à pandemia de covid-19, ganhou contornos ainda mais dramáticos após o prolongado fechamento de escolas nos últimos dois anos. Uma nova estimativa do Banco Mundial e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em colaboração com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), aponta que, na região, quatro em cada cinco alunos do 6.º ano do ensino fundamental não conseguem entender e interpretar textos de maneira adequada.

O alerta sobre o problema, de consequências avassaladoras, consta de relatório lançado no último dia 23 de junho. De acordo com o documento, pode ter havido um retrocesso de mais de dez anos nos resultados de aprendizagem, afetando principalmente crianças em fase de alfabetização − com impacto ainda maior entre alunos de perfil socioeconômico mais baixo. O que já seria grave em qualquer cenário fica ainda pior quando se recorda que os indicadores educacionais da América Latina e do Caribe, na média, deixavam muito a desejar antes da pandemia.

O relatório leva o nome de Dois anos depois: salvando uma geração. É exatamente disso que se trata: salvar uma geração de estudantes cuja vida escolar foi atropelada não somente pela pandemia, mas pela interrupção exageradamente longa das aulas presenciais e por deficiências na oferta da educação remota. Ainda que professores e redes de ensino tenham se esforçado, esbarraram na falta de acesso à internet e em deficiências de infraestrutura, além da própria inexperiência docente em educação a distância.

O documento informa que, na média, as escolas da América Latina e do Caribe ficaram total ou parcialmente fechadas durante 58 semanas de aula entre março de 2020 e março de 2022 − o que faz da região a terceira com maior período de suspensão do ensino presencial no planeta. Apenas o sul da Ásia e a América do Norte registraram número maior, com 66 e 63 semanas respectivamente. Vale ressaltar, porém, que, na América do Norte, somente 7 das 63 semanas tiveram fechamento total de escolas, ante 29 na América Latina e Caribe (e 35 no sul asiático).

Os cerca de 170 milhões de estudantes latino-americanos e caribenhos ficaram sem ensino inteiramente presencial, na média, em um a cada dois dias de aula, segundo o documento. Não surpreende, portanto, o tamanho do prejuízo: é notório que o ensino remoto, mesmo em condições adequadas, não se equipara à experiência presencial em sala de aula. Isso é especialmente verdadeiro para alunos cujos pais ou responsáveis têm pouca escolaridade e baixa renda. 

O relatório faz um prognóstico sombrio: o déficit de aprendizagem registrado durante a pandemia poderá reduzir em 12% a renda que os atuais alunos terão ao longo da vida. Isso por causa das perdas educacionais, sem falar nos demais prejuízos. A publicação menciona que o subcontinente foi a região do mundo com mais mortes per capita por covid-19: embora concentre 8% da população global, respondia por 28% das mortes relacionadas ao coronavírus. Além disso, a América Latina e o Caribe sofreram os piores impactos na atividade econômica e apresentavam as mais baixas perspectivas de recuperação. 

Na educação, vários desdobramentos ainda não são inteiramente conhecidos: um deles diz respeito ao risco de que mais estudantes abandonem os estudos, no atual ano letivo, em decorrência do atraso escolar. Isso, por óbvio, vai depender da resposta de cada país. No Brasil, em termos de poder público, as esperanças recaem sobre governos estaduais e municipais, considerando que o Ministério da Educação (MEC), sob o governo Bolsonaro, carrega a marca da omissão, tendo abdicado de seu papel de coordenação nacional.

O relatório recomenda foco na retomada do ensino presencial, com a reabertura de todas as escolas, e em estratégias de recomposição da aprendizagem, com atividades de recuperação planejadas a partir de evidências, isto é, de avaliações. O caminho está dado − e saber o que fazer é essencial. Resta agora agir, com urgência.

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