Transporte público abandonado

A situação da mobilidade urbana em todo o País é desanimadora, com 248 obras paradas em 75 cidades

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2019 | 03h00

Embora há muito se discutam intensamente os problemas de mobilidade urbana, que interessam de perto aos habitantes das grandes cidades, a situação das obras nesse setor em todo o País é desanimadora. Hoje há 248 obras paradas em 75 cidades, como mostra reportagem do Estado. É que, passado o calor das campanhas eleitorais, as promessas dos candidatos sobre melhora do transporte público - que exige grandes investimentos, de retorno só a médio e longo prazos - são logo esquecidas e não entram nas prioridades dos governantes.

Segundo levantamento da Associação Nacional de Empresas de Transportes Urbanos (NTU), aqueles empreendimentos, todos ligados a ônibus - BRTs, corredores exclusivos e faixas -, somam 2.743 km de extensão. Esse número dá ideia do tamanho e da gravidade do problema. Por ele são responsáveis os três níveis de governo - União, Estados e municípios -, pois todos participam com uma parcela dos investimentos prometidos. 

“Está tudo paralisado nessa área. Infelizmente, essa é a realidade. Os dados estão aí para mostrar que a mobilidade urbana não está dentro das prioridades do governo”, afirma Otávio Cunha, presidente executivo da NTU. Apenas R$ 348 milhões foram destinados pelo Orçamento da União de 2019 para empreendimentos de transporte público, o que representa 0,01% do total, números irrisórios se for considerada a importância dessa área para a população. E não há sinal de que a situação tende a melhorar significativamente. O estudo apurou que existem hoje 706 obras em diferentes estágios de execução no País, um aumento de apenas 3% em relação ao ano passado. 

A grave crise econômica e financeira por que passa o País há alguns anos, e que levou a uma severa contenção de gastos públicos - que ainda continua -, só pode ser responsabilizada parcialmente por essa situação. A paralisia das obras, segundo o estudo da NTU, resulta de um conjunto de fatores que, além da crise, inclui corrupção; falta de prioridade à mobilidade urbana na programação de gastos dos governos federal, estaduais e municipais; projetos mal elaborados; e complicações jurídicas. 

Tanto a crise não pode servir de desculpa que o problema começou a se agravar antes dela. O estudo lembra que benefícios para o setor do transporte público foram usados para justificar a realização no Brasil da Copa do Mundo, em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016. Os gastos faraônicos exigidos para abrigar esses eventos seriam compensados pelo prestígio que trariam para o País e, mais concretamente, pela construção, ampliação ou modernização de metrô e de modernas linhas de ônibus BRTs, além de corredores exclusivos ou faixas para esses veículos.

Quase nada disso foi cumprido. Não faltou dinheiro para a construção de caríssimos estádios e locais para acolher atletas - exigência da Fifa e do Comitê Olímpico -, com a maioria dos quais não se sabe agora o que fazer. Mas faltou para a mobilidade urbana. Calcula-se que somente 9,4% dos gastos previstos para obras nesse setor, R$ 14,2 bilhões, foram efetivamente gastos. 

As consequências negativas do descaso com a mobilidade urbana já são visíveis. Uma delas é a queda da demanda pelo serviço de ônibus, reação dos usuários à sua notória má qualidade: lentidão, longas esperas nos pontos, desconforto. A queda foi de 50,3%, entre 1994 e 2017, segundo a NTU. Ao mesmo tempo, de acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a frota de automóveis aumentou 175% desde 2000, de 20 milhões para 55 milhões de veículos. O salto da frota de motocicletas, no mesmo período, foi maior ainda: de 570%, de 6 milhões para 27 milhões.

Para a almejada melhora da mobilidade urbana, este é o pior cenário: deterioração e abandono progressivo dos ônibus em favor dos carros, o que resulta em congestionamentos crescentes. Outras formas de deslocamentos, como motocicleta e bicicleta, aliviam, mas não resolvem o problema da mobilidade, que depende basicamente do ônibus e do sistema metroviário. 

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