Trégua na guerra comercial

A primeira fase do acordo comercial entre EUA e China está longe de representar garantia de que as coisas vão melhorar

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2020 | 03h00

Não é incorreta a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que a assinatura, na quarta-feira passada, da chamada fase 1 do acordo comercial entre seu país e a China representa “um passo importante para uma relação equilibrada e justa” entre as duas maiores economias do planeta. É bastante provável que, com o acordo, o ambiente no comércio internacional se torne um pouco menos tenso do que estava até uns dias atrás, ante a ameaça de uma guerra comercial entre as duas superpotências econômicas, que afetaria o desempenho de todos os demais países inseridos no sistema mundial de trocas de bens e serviços. Mas ainda assim esse ambiente continuará bastante diferente daquele que se observava há cerca de dois anos, antes de começar a sequência de medidas restritivas ao comércio bilateral impostas reciprocamente pelos governos das duas nações. E a simples assinatura da primeira fase do acordo entre elas está longe de representar uma garantia de que doravante as coisas vão melhorar.

O acordo levou euforia a alguns mercados e pode, numa avaliação talvez otimista, representar uma trégua no conflito comercial iniciado em 2018 e que resultou na escalada de tarifas alfandegárias impostas pelos EUA a US$ 360 bilhões de importações chinesas e em retaliações por parte do governo de Pequim. Doravante, as coisas podem parar de piorar.

Uma avaliação perfeita foi feita por um funcionário do Ministério do Comércio chinês. Segundo ele, a fase 1 “mostra que os dois países chegaram a um consenso no momento”. Em seguida, porém, advertiu: “Não podemos esperar que o atrito comercial desapareça simplesmente por causa da assinatura de um acordo”.

Do ponto de vista político, o presidente Donald Trump saiu-se bem. Apresenta-se ao eleitorado norte-americano como um negociador duro em defesa dos interesses de seu país que conseguiu vantagens na disputa contra um competidor feroz e de grande esperteza. É a consolidação de uma imagem importante, sobretudo para boa parte do eleitorado do setor agrícola, faltando 11 meses para a eleição presidencial que pode conduzir Trump a mais quatro anos na Casa Branca.

A China comprometeu-se a aumentar em US$ 200 bilhões nos próximos dois anos suas compras de bens e serviços norte-americanos; em US$ 77,7 bilhões as de manufaturados; em US$ 52,4 bilhões suas compras de energia; em US$ 37,9 bilhões as de serviços; e em US$ 32 bilhões as importações de produtos agrícolas. São, porém, metas genéricas.

Isso pode restabelecer o volume de exportações de soja dos Estados Unidos para a China, que, no auge da guerra, diminuiu em cerca de 20 milhões de toneladas. A evolução do comércio da soja entre os dois países afetará de algum modo as exportações brasileiras.

Os EUA, de sua parte, vão reduzir pela metade, para 7,5%, as tarifas impostas em dezembro sobre US$ 120 bilhões em importações originárias da China, mas manterão as tarifas de 25% sobre US$ 250 bilhões de produtos chineses.

Calcula-se que, em média, as tarifas recíprocas médias estarão em torno de 20% como resultado da primeira fase do acordo. Haverá uma redução em relação às tarifas que vigoravam imediatamente antes da fase 1, mas a média continuará muito mais alta do que a que se observava antes do início do conflito comercial entre os dois países.

Não há nenhuma certeza sobre como as relações comerciais entre EUA e China evoluirão quando se concluir a etapa mais importante do acordo, a chamada fase 2, para a qual foram remetidas todas as principais questões e todos os principais contenciosos entre as duas potências.

Trump disse esperar que todas as questões comerciais entre EUA e China sejam resolvidas na próxima etapa. Mas não há nem sequer data para o início das negociações da fase 2. “Se os dois países se apressarem com as conversas da fase 2, agirão como um urso que se perde no milharal”, comparou o vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, que assinou o acordo da fase 1 em Washington.

 

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