Trégua no mercado de petróleo

Acordo celebrado pela Opep+ ajuda a diminuir a alta volatilidade do setor nos últimos meses

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 03h00

Após semanas de impasse, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) finalmente chegou a um acordo sobre a necessidade de cortes na produção diária com vistas a conter a queda dos preços do óleo no mercado mundial. Dois dias antes, os ministros de Energia dos países que compõem o G-20 realizaram uma reunião extraordinária com o mesmo objetivo. A urgência de ambos os encontros (virtuais, diga-se) mais do que se justificava. Na última semana de março, os contratos futuros do Brent para maio eram negociados a US$ 26,34 o barril na ICE, em Londres. O West Texas Intermediate (WTI), referência nos Estados Unidos, ficou em US$ 20 o barril.

Sob a perspectiva da oferta, seria ingênuo esperar que o acordo da Páscoa represente o fim das tensões geopolíticas que crispam as relações entre alguns países-membros da Opep+ e que já vinham pressionando os preços para baixo. O entendimento é uma trégua pontual que ajuda a diminuir a alta volatilidade do setor ocasionada pela repentina alteração na demanda por óleo nos últimos dois meses.

Os efeitos da pandemia de covid-19 na atividade econômica – indústrias fechadas ou funcionando parcialmente, aviões em solo e menos automóveis nas ruas – reduziram drasticamente a demanda por petróleo no mundo inteiro, sobretudo na China. De acordo com a Bloomberg, a demanda chinesa por petróleo caiu 20%, de 15 milhões para 12 milhões de barris por dia (bpd). Analistas do setor estimam que o consumo mundial do óleo (aproximadamente, 100 milhões de barris diários) tenha caído cerca de 25% no curso de uma crise que está apenas no começo. Até agora, a pandemia de covid-19 levou à maior queda de demanda por petróleo desde a crise financeira global de 2008.

Sob uma tempestade perfeita – conhecidas tensões geopolíticas e uma superveniente emergência sanitária –, não eram poucas as empresas do setor de óleo e gás que estavam ameaçadas de falência caso os países-membros da Opep+ não chegassem a um entendimento rapidamente. A reboque, todas as instituições financeiras que investiram bilhões de dólares nestas companhias nos últimos anos também estavam expostas a enorme risco, o que poderia elevar a gravidade da crise global ocasionada pelo novo coronavírus a um patamar inimaginável. “A atual crise do mercado de petróleo é um choque sistêmico que ameaça a estabilidade econômica e financeira global. Requer, portanto, uma resposta global. Por esta razão, o G-20 é o fórum indispensável para o exercício de uma liderança decisiva diante da urgência”, afirmou Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).

O apelo feito por Fatih Birol tinha destinatário certo: os Estados Unidos. Na última cúpula do G-20, o desentendimento entre Rússia e Arábia Saudita foi solenemente ignorado, o que fez desabar ainda mais os preços do petróleo. Riad vinha insistindo em inundar o mundo de petróleo a despeito da redução expressiva na demanda, o que confrontava diretamente os interesses de Moscou. Era esperado que os Estados Unidos usassem a cúpula do G-20 para pressionar os sauditas a pôr fim à disputa de preços com a Rússia, o que não ocorreu.

Pelo acordo celebrado, classificado como “histórico” pelo secretário-geral da Opep, Mohammed Barkindo, os países-membros da Opep+ se comprometeram em reduzir a produção até um total de 9,7 milhões de barris por dia nos meses de maio e junho. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que participou da reunião do G-20, celebrou a assinatura do acordo. “O Brasil cumprimenta a Arábia Saudita e a Opep+ por um acordo que contribuirá para a estabilização do mercado de petróleo”, disse o ministro. Pelo Twitter, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saudou a Opep+ e, em especial, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o rei saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, pelo “ótimo acordo para todos”. Nada mau para governos que até bem pouco vituperavam contra toda e qualquer ação de colaboração multilateral.

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