Triunfo de Trump, risco para o mundo

Novo triunfo do presidente dos Estados Unidos é um risco para a democracia liberal

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 03h00

Em política não há prognósticos inscritos em pedra. O que hoje é dado como certo, amanhã pode ser atropelado por um caminhão de imponderabilidades. Não seria seguro, portanto, apostar que a reeleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, são favas contadas. Mas ele nunca reuniu elementos tão favoráveis à sua vitória na eleição de novembro como agora.

Como esperado, o Senado americano, de maioria republicana, absolveu o presidente Trump das acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso, crimes de responsabilidade que poderiam apeá-lo da Casa Branca. O resultado da votação foi acachapante. Para destituir Trump do cargo, os democratas precisariam reunir dois terços dos 100 senadores, o que significa que para esse quórum ser atingido seria necessário que 20 republicanos votassem contra Trump. Só um o fez, e mesmo assim apenas na acusação de abuso de poder: o senador Mitt Romney, antigo desafeto político do presidente.

Livre das pesadas acusações que poderiam culminar no seu impedimento, Donald Trump agora pode se concentrar na campanha pela reeleição, que, a julgar pela confusão no processo inicial de escolha do candidato democrata, deverá ser relativamente tranquila para o atual mandatário. A descontração de Trump é tal que o presidente se permitiu até tripudiar da falha amadora na apuração dos votos no caucus do Partido Democrata em Iowa. Diante da trapalhada – os democratas não testaram previamente o sistema de apuração, que apresentou problemas –, Trump afirmou ter sido ele, e não um democrata, o grande vencedor daquela votação. Ao Partido Democrata só restou a humilhação no pontapé inicial do processo de escolha de seu candidato à presidência.

Ao pronunciar o discurso anual sobre o Estado da União, no dia 4 passado, o presidente Donald Trump, evidentemente, ainda não tinha conhecimento do resultado da votação final de seu processo de impeachment no Senado, que só ocorreria no dia seguinte, mas já estava confortável o bastante para usar a tribuna da Câmara dos Representantes como palanque para sua campanha de reeleição. Mais do que falar dos planos para seu quarto e último ano de mandato, Trump dedicou grande parte do discurso para projetar o que será o próximo quadriênio caso seja reeleito. Sem cerimônia, o presidente transformou o que deveria ser um ato cívico solene em uma deliberada autopromoção, bem a seu estilo.

Esta, aliás, talvez seja sua maior qualidade. Ninguém “vende” melhor Donald Trump do que ele mesmo. O presidente americano é hábil em reverter em seu benefício situações adversas. Tanto melhor quando a situação nem é tão adversa assim. A economia dos Estados Unidos vive ciclo de expansão contínua há mais de 120 meses. O desemprego no país é baixíssimo, menos de 4%, o que, na prática, significa pleno-emprego. Junte-se a isso o fato de Donald Trump ter conseguido estabelecer uma forte conexão emocional com seus eleitores mais fiéis, notadamente nos setores agrícola e industrial de Estados alijados dos ganhos da globalização e pronto, tem-se um candidato virtualmente imbatível.

Tudo conspira a favor de um novo triunfo eleitoral de Trump, agora não mais como um outsider. Se ele sairá ou não vitorioso do pleito, o tempo dirá. Mas a democracia liberal certamente perderá um tanto mais de seu viço com uma vitória de Trump. Com ele, sedimenta-se a perniciosa ideia de que em política vale tudo, vale a disseminação de fake news, vale o ataque à liberdade de imprensa, vale a pressão ilegítima sobre aliados, vale a desconstrução dos organismos multilaterais que garantiram a ordem mundial vigente no pós-guerra.

O triunfo do nacional-populismo de Donald Trump deu azo à ascensão de líderes afins em outros países, inclusive no Brasil. Quando os valores iliberais de um movimento como este vicejam na nação que já foi o farol para o mundo democrático, há muito com o que se preocupar.

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