Twitter na direção certa

Empresa banirá o chamado impulsionamento de postagens de conteúdo político. A mensagem é alvissareira

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2019 | 03h00

O presidente executivo do Twitter, Jack Dorsey, anunciou que a partir de 22 de novembro a empresa banirá o chamado impulsionamento de postagens de conteúdo político em sua plataforma. Por “impulsionamento” entenda-se o pagamento para que determinada mensagem chegue a um número maior de pessoas. “Nós acreditamos que o alcance de uma mensagem política deve ser conquistado, e não comprado”, escreveu Dorsey em sua conta na rede social. A mensagem é alvissareira. Ela indica uma nova direção para o debate público na chamada esfera digital. Uma direção que, antes de tudo, resgata o valor da verdade factual.

A medida valerá para todos os países onde o Twitter está presente. No Brasil, deverá ter impacto positivo na qualidade do debate político no curso da campanha eleitoral de 2020. Será igualmente sentida nos Estados Unidos, onde haverá eleição presidencial no ano que vem. O país tem o maior número de usuários do Twitter, cerca de 48 milhões. O Brasil é o sexto colocado, com cerca de 8,3 milhões de pessoas físicas, empresas e instituições registradas.

O anúncio da medida é um refrigério para a alma dos que prezam a honestidade intelectual e o reconhecimento da verdade factual como o mínimo denominador comum de qualquer debate político que se pretende sério em uma sociedade democrática. Que as versões possam ser mais apetitosas do que os fatos – e por essa razão sejam exploradas em nome dos mais variados interesses – não é novidade. O que assombra é a desenvoltura com que se nega ou se distorce a verdade factual na era da informação digital.

Os avanços tecnológicos e a massificação do acesso à internet, em especial às redes sociais como o Twitter, mudaram para sempre a forma de relacionamento entre as pessoas, entre os cidadãos e as instituições, entre a sociedade e o Estado. No que concerne à circulação de informações, as redes sociais passaram a exercer um papel de moderação que antes era restrito à imprensa e a outros setores da sociedade civil, como os partidos políticos, os sindicatos e as igrejas.

O controle de qualidade da informação exercido por essas organizações impõe, antes de tudo, o respeito pela verdade factual como norte incontornável, em especial no caso da imprensa, que tem deveres legais e morais a observar no exercício do nobre ofício de lançar luz sobre as questões mais importantes para a sociedade. Já no ambiente livre da internet esse controle é frouxo.

Se, por um lado, muitos atores sociais relevantes passaram a contar com um espaço para difusão de suas reflexões do qual não dispunham antes das redes sociais, por outro lado, é pela estrada digital que trafegam todos os dias as mais estapafúrdias ideias e mentiras, chegando a um número cada vez maior de pessoas.

Inegavelmente, a falta de anteparos que contenham a circulação de mentiras e distorções nas redes sociais é uma das maiores ameaças à democracia para as sociedades do século 21. Votos podem ser decididos com base em informações falsas disseminadas por meio das redes sociais. A medida em boa hora anunciada pelo Twitter ergue-se como um desses importantes anteparos. A empresa tem 600 milhões de usuários no mundo.

As postagens no Facebook atingem um número ainda maior: 2,45 bilhões de usuários, cerca de um terço da população mundial. Porém, o presidente da companhia, Mark Zuckerberg, tem uma visão diametralmente oposta à de Jack Dorsey. Para ele, não cabe ao Facebook controlar o que é verdade ou mentira porque isso, em sua visão, seria uma “violação da liberdade de expressão”. Mas qual o valor dessa liberdade quando ela é usada para desviar as pessoas da verdade factual, levando-as a tomar decisões com base em mentiras?

O Twitter junta-se à rede CNN para atestar que não vale tudo nas disputas políticas (ver editorial Os limites da luta política, publicado em 14/10/2019). É uma importante e pertinente mensagem. Não há liberdade plena sob império da mentira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.