Um acordo histórico

Acordo é bom para Trump, Netanyahu e Bin Zayed, não para o processo de paz

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 03h00

Na noite de quinta-feira passada, a sede da prefeitura de Tel-Aviv foi iluminada de vermelho, verde, branco e preto, formando a bandeira dos Emirados Árabes Unidos (EAU). A cena era impensável até a surpreendente revelação, feita horas antes pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da assinatura de um acordo para normalização das relações diplomáticas entre os Emirados e Israel, firmado naquele mesmo dia.

“Histórico” é o adjetivo mais adequado para descrever o feito, sem qualquer exagero. Os EAU são o primeiro país do Golfo Pérsico a estabelecer relações diplomáticas com Israel e apenas o terceiro país do chamado mundo árabe a reconhecer o Estado de Israel desde a declaração de independência, em maio de 1948. O primeiro foi o Egito, em 1979, seguido pela Jordânia, em 1994.

É difícil, mas pelo que se viu já não é tão improvável que no futuro próximo um acordo dessa natureza também venha a ser firmado entre Israel e a Arábia Saudita, o que seria um evento ainda mais impactante para o arranjo geopolítico da região. Um dito popular ajuda a esclarecer o que está por trás dessas tratativas: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”. O inimigo comum, no caso, é o Irã, o eixo xiita do islamismo no Oriente Médio.

Pelo acordo, Israel deverá suspender, ao menos por ora, sua política de expansão dos assentamentos na Cisjordânia. O príncipe herdeiro dos EAU, Mohammed bin Zayed, disse que o acordo “põe fim a qualquer nova tentativa de anexação de territórios palestinos” pelos israelenses. Entretanto, o entendimento entre Israel e os EAU foi muito mal recebido pela Autoridade Palestina, que convocou seu embaixador em Abu Dhabi para consultas. O Hamas, grupo terrorista que governa a Faixa de Gaza, disse que o acordo foi uma “facada nas costas do povo palestino”.

Em que pese a relevância do acordo entre Israel e os EAU, engana-se quem o vê como um “grande passo para a paz na região”, como o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo. Na mesma linha, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, saudou o acordo como “um passo decisivo no rumo da paz e da prosperidade no Oriente Médio”. A bem da verdade, a negociação foi muito boa para o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, para Trump e para Bin Zayed, não para o processo de paz. Não haverá acordo de paz duradouro sem que os palestinos estejam na mesa de negociações.

Netanyahu ganha fôlego em meio ao desgaste interno pelas denúncias de corrupção, por sua má condução das ações de combate à pandemia de covid-19 e por sua controvertida política de expansão dos assentamentos de colonos na Cisjordânia.

Já Mohammed bin Zayed passa a ter em Israel um aliado de peso para conter a expansão da zona de influência de Teerã no Golfo Pérsico, além dos benefícios advindos dos acordos bilaterais que assinará com os israelenses, em especial nos setores de comércio, segurança e turismo.

Por sua vez, Donald Trump, que avoca para si os créditos pela mediação do acordo, já negocia um encontro entre Netanyahu e Bin Zayed para uma sessão de fotos nos jardins da Casa Branca, o que haverá de servir como trunfo eleitoral. Ainda não se sabe exatamente qual foi o papel desempenhado por Trump na construção do acordo, mas fato é que tanto Netanyahu como Bin Zayed deram crédito ao presidente americano pelo avanço das negociações após muitas décadas de inimizade entre seus países.

Decerto esse afago será bem explorado por Trump em sua campanha pela reeleição como um fator de equilíbrio em meio aos reveses decorrentes de sua má condução das ações de enfrentamento da pandemia de covid-19, da crise econômica que dela adveio e da liderança de seu adversário, o democrata Joe Biden, nas pesquisas de intenção de voto. Contudo, não é razoável supor que o feito no plano internacional, a despeito de sua relevância, vai alterar de forma significativa o estado de espírito dos americanos. A ver em novembro.

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