Um ano em baixa velocidade

Condutores da política econômica têm-se mostrado pouco propensos a penas as condições concretas – materiais, portanto – da atividade produtiva

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2020 | 03h00

Será uma surpresa positiva se a economia brasileira tiver fechado o ano de 2019 com crescimento igual ou superior a 1,32%, taxa estimada para 2018 e 2017. A expectativa de um resultado muito próximo de 1% acaba de ser reforçada com a divulgação do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), conhecido no mercado como prévia do PIB. Segundo esse indicador, a atividade em novembro foi 0,18% maior que no mês anterior e 1,10% superior à de um ano antes. A nova informação foi recebida com sinais de otimismo – ou de alívio – principalmente porque a variação de setembro para outubro havia sido de apenas 0,09%, quase nula, portanto. Além disso, o IBC-Br fecha num quadro ligeiramente positivo os dados parciais de novembro conhecidos até os últimos dias: produção industrial com recuo de 1,2%, vendas do varejo restrito com aumento de 0,6% e atividade de serviços com diminuição de 0,1%. O varejo ampliado (com inclusão de veículos e materiais de construção) diminuiu 0,5%. A estimativa da produção agropecuária pode ter ajudado a melhorar o conjunto.

As promoções ligadas à Black Friday ajudaram a movimentar as lojas de roupas, calçados, eletrodomésticos, eletrônicos, perfumarias e supermercados. Os saques de recursos do FGTS e do PIS-Pasep também reforçaram o poder de compra das famílias. Mesmo com o recuo de vendas de veículos, seus componentes e materiais de construção, a atividade geral ganhou algum vigor.

O dado mais importante do novo IBC-Br, de toda forma, é a reafirmação da tendência geral da economia brasileira. Segundo os novos cálculos, a atividade cresceu 0,90% em 12 meses. Além disso, a comparação dos meses de janeiro a novembro com igual período de 2018 mostrou ganho de 0,95%.

Os números do IBC-Br nem sempre antecipam com precisão os dados publicados trimestralmente do Produto Interno Bruto (PIB). Mas dão uma boa ideia do estado geral da economia brasileira. Neste caso, sua importância principal é reforçar as apostas num resultado final ao redor de 1%. O governo parece conformado com essa possibilidade e o Ministério da Economia, em seu último boletim macroeconômico, cravou 1,12% como estimativa provisória da variação do PIB em 2019. O primeiro balanço completo e oficial deve ser publicado em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Olhar o mundo pelo espelho retrovisor é perda de tempo, segundo alguns analistas do setor financeiro. Muito mais útil, afirmam, é concentrar a atenção no desempenho atual da economia e nas suas condições de crescimento nos próximos meses. Se esse argumento valer para o IBC-Br e outras estimativas do passado recente, deverá valer também para os dados mais completos e mais precisos do PIB. Esse ponto de vista é claramente indefensável. O espelho retrovisor, com ou sem a precisão das contas do IBGE, dá informações muito valiosas sobre como se chegou até aqui e sobre a base da atividade para a fase seguinte.

Alguns pontos são claros e já o eram no ano passado. A indústria brasileira foi devastada nos últimos anos, a partir de 2012, e só se poderá falar seriamente de recuperação econômica, a partir de agora, se o setor industrial for recomposto. (Ver o editorial O drama da indústria.) É erro enorme comparar a desindustrialização do Brasil com as mudanças ocorridas na estrutura econômica das economias mais avançadas. No caso brasileiro, trata-se de enorme retrocesso histórico.

Outro ponto claro e preocupante é o baixo investimento em máquinas, equipamentos e obras. Não se trata só da taxa de investimento, relação porcentual entre a formação de capital fixo e o PIB. Isso é muito importante, mas é necessário cuidar da forma de aplicação do dinheiro. Sem melhora da infraestrutura, cada real investido na indústria, na agropecuária e nos serviços terá retorno fortemente limitado.

Os condutores da política econômica têm-se mostrado pouco propensos a pensar as condições concretas – materiais, portanto – da atividade produtiva. Se assim continuarem, dificilmente conseguirão apressar a recuperação da indústria, a retomada econômica e a redução do desemprego.

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