Um aperitivo da crise do diesel

Por causa da escassez, a Argentina raciona o combustível; controle de preços desorganiza um mercado já conturbado

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 03h00

O racionamento do diesel em províncias argentinas por causa da escassez do combustível deve servir de alerta para o Brasil. O desabastecimento que a Argentina enfrenta resulta da combinação de fatores conjunturais, como redução da produção local e alta sazonal da demanda. Mas sua causa principal é o controle de preços imposto pelo governo do presidente Alberto Fernández, com o objetivo de conter a inflação, de praticamente 60% em 12 meses, a maior em 30 anos. Boa parte do diesel consumido no país é importada. E quem importará um produto com o preço em alta no mercado mundial para vendê-lo no mercado interno por um preço controlado e menor, com pesadas perdas?

As ineficazes e grosseiras medidas aventadas ou anunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro para conter a alta do diesel, da gasolina e do gás de cozinha ainda não geraram problemas tão agudos como os que enfrenta a Argentina. Mas se ele tiver êxito com sua insistência em controlar artificialmente os preços praticados pela Petrobras, uma crise de abastecimento será armada. Não se sabe se ela explodirá antes ou depois da eleição presidencial, mas o resultado dessa aventura acabará por surgir, tornando ainda mais difícil a vida dos brasileiros. Virá na forma de escassez aguda ou na de explosão de preços, ou nas duas.

No Brasil, a participação do diesel importado no consumo interno passou de 20,9% em 2020 para 23,2% no ano passado, segundo dados da Agência Nacional d0 Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Embora a Petrobras mantenha os preços dos combustíveis alinhados com os valores médios praticados no exterior, o intervalo entre uma correção e outra pode resultar em defasagens. No caso do preço da gasolina, por exemplo, sem reajuste por cerca de três meses, a defasagem em relação aos preços internacionais é estimada em 20%; para o diesel, em 14%. Alta do barril do petróleo por causa da guerra na Ucrânia e desvalorização do real ante o dólar são as causas principais dessa defasagem.

É possível, por meio de forte pressão política, conter os preços dos combustíveis mesmo que isso implique perdas para a Petrobras. Foi isso que fez com muita insistência o governo lulopetista e a consequência foi a destruição do equilíbrio econômico-financeiro da empresa, cuja dívida cresceu exponencialmente e, até hoje, impõe um rígido programa de ajuste. É o que Bolsonaro vem tentando fazer, sem pleno êxito, por causa da resistência da gestão profissional da empresa.

Mas a defasagem de preços não prejudica apenas a Petrobras. Afeta também as operações das empresas importadoras de diesel, que, mesmo sendo livres para fixar preços, perdem competitividade se os corrigirem de acordo com o mercado internacional, enquanto a maior empresa do setor, a própria Petrobras, mantém seus preços comprimidos.

Não é de estranhar que se intensifiquem alertas sobre possível escassez de diesel no País já no início do segundo semestre. Regiões mais distantes das refinarias nacionais seriam as primeiras a serem afetadas.

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