Um Congresso distante da sociedade

Fechado em pautas que privilegiam, antes de tudo, os interesses dos parlamentares, o Congresso não conta com o alto apreço dos eleitores

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2022 | 03h00

O apreço que a sociedade tem pelo trabalho de deputados e senadores nunca foi alto. Em maior ou menor grau, a depender da legislatura, o Congresso sempre foi mal avaliado. A bem da verdade, isso diz mais sobre a educação política dos eleitores e, consequentemente, a qualidade dos votos depositados nas urnas do que qualquer outra coisa. Afinal, nenhum deputado ou senador chegou ao Congresso forçando a porta de entrada.

Para compor essa imagem negativa que o conjunto dos parlamentares transmite à sociedade, também não se pode esquecer que a chamada “classe política” se esforça muito para deliberadamente piorar o que já é ruim, pois muitos políticos oportunistas, em tempo de eleição, exploram o descontentamento dos eleitores com o Congresso – percebido, em geral, como uma instituição distante dos reais problemas do País – para obter ganhos pessoais. Em boa medida, essa dissimulação ajudou a alçar alguém do gabarito de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

Mas, ao final, os grandes responsáveis pela má imagem do Congresso aos olhos da maioria dos eleitores são, evidentemente, os próprios deputados e senadores que traem a confiança neles depositada ao orientarem seus mandatos por interesses antirrepublicanos. São suas escolhas como mandatários que definirão, individualmente, a percepção que seus constituintes têm de seu trabalho parlamentar e, no conjunto, a visão que a sociedade tem do Congresso. E a impressão que a atual legislatura transmite é a pior possível.

Uma pesquisa do Datafolha realizada entre os dias 13 e 16 de dezembro mostrou que apenas 10% dos brasileiros aprovam a atuação do Congresso. É o pior patamar de avaliação do Legislativo federal em três anos, quando, segundo o mesmo instituto, 22% dos pesquisados consideravam o trabalho do Congresso “ótimo ou bom” – porcentual não muito mais animador. Para 45% dos entrevistados na nova rodada da pesquisa, o trabalho dos parlamentares é “regular”. Para 41%, “ruim ou péssimo”. Outros 4% não souberam ou não quiseram responder.

A péssima avaliação da atual legislatura não é surpresa para ninguém, tanto para quem acompanha o dia a dia da política como para quem mais sofre as consequências diretas de um Congresso cada vez mais distante dos problemas que afligem milhões de brasileiros. A Câmara dos Deputados e o Senado, sob a presidência, respectivamente, de Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), têm dado sucessivas mostras de alheamento, fechadas que estão, ambas as Casas, em pautas que privilegiam, antes de qualquer coisa, os interesses dos próprios parlamentares.

Assim como a esmagadora maioria dos eleitores é capaz de perceber que não há governo no País, como mostrou recente pesquisa realizada pelo Ipec, também não está alheia ao que se passa no outro canto da Praça dos Três Poderes. Os eleitores não estão alheios à tomada de assalto do Orçamento da União pelos parlamentares. Não estão alheios a um Congresso que, em meio à pior tragédia sanitária que já se abateu sobre o País, ainda cogita cortar recursos orçamentários do Ministério da Saúde para custeio de UTIs. Não escapa ao olhar crítico dos cidadãos o aumento ignominioso do montante destinado ao financiamento de partidos políticos e campanhas eleitorais enquanto projetos destinados a atacar mazelas renitentes do País seguem à míngua, como é o caso do projeto para zerar a fila dos beneficiários do Bolsa Família.

A palavra “precatório” pode não significar nada para a maioria dos brasileiros, mas estes sabem que o Congresso – com a cumplicidade de Bolsonaro – aprovou o calote das dívidas da União para abastecer de recursos os partidos políticos e parlamentares, além de financiar o populismo eleitoreiro do presidente da República.

Compor o Orçamento da União é o coração da atividade dos parlamentares. É fazer escolhas. E tanto a forma como a qualidade dessas escolhas definem o vigor de uma democracia representativa. Orçamento e democracia estão umbilicalmente ligados. Neste sentido, a democracia brasileira vai mal, e os eleitores parecem ter percebido.

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