Um desafinado no trio

Crescimento no primeiro trimestre dá ao Brasil um destaque duvidoso

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 03h00

Brasil, Austrália e Coreia cresceram o suficiente, no primeiro trimestre, para voltar ao patamar econômico pré-pandemia, isto é, ao nível de produção dos três meses finais de 2019. China, Índia e Turquia já haviam retornado no fim de 2020. EUA, Alemanha, Japão, Reino Unido e demais membros do Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias do mundo, ficaram para trás nesse percurso. No período janeiro-março deste ano as economias australiana, coreana e brasileira cresceram 1,8%, 1,7% e 1,2% em relação ao último trimestre do ano passado. Nesta mesma comparação, o Produto Interno Bruto (PIB) do G-20 aparece com avanço de 0,8%.

Festejado no governo e celebrado no mercado financeiro nacional, o balanço do primeiro trimestre estimulou a revisão, para cima, das projeções de crescimento econômico em 2021. Várias instituições já elevaram para 6% suas estimativas de expansão do PIB neste ano. Mas os números do Brasil ficam bem menos brilhantes, apesar da invejável companhia da Austrália e da Coreia no período recente, quando se levam em conta outros indicadores muito importantes – especialmente para o bem-estar das populações, especialmente dos grupos menos abonados.

A imagem brasileira fica muito menos atraente, na cena internacional, quando se examinam os dados do mercado de trabalho. No Brasil, os desempregados no primeiro trimestre foram 14,8 milhões, número equivalente a 14,7% da força de trabalho. Na Austrália, no mesmo período, o desemprego ficou em 6%. Na Coreia, em 4,4%. Nos dois países a desocupação foi inferior à média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), então situada em 6,7%. Na zona do euro o desemprego foi maior (8,2%), mas ainda ficou muito abaixo do nível observado no Brasil.

Os dados do emprego indicam algumas diferenças muito importantes. Os níveis de ocupação, bem superiores aos do Brasil antes da pandemia, logo entraram em recuperação depois da pior fase do ano passado. Não retornaram, logo, ao nível anterior à contração econômica, mas continuaram melhores que os brasileiros. No conjunto da OCDE, a retomada produziu benefícios econômicos bem mais espalhados que no Brasil, mesmo naqueles países onde o PIB permaneceu, até o primeiro trimestre deste ano, abaixo do patamar de antes da crise de 2020.

Outros dados muito relevantes também compõem as distinções. As desigualdades são muito menores que as observadas no Brasil e há menos pobreza. Mas, além de mais pobres, os brasileiros ainda enfrentam condições de preços muito mais desfavoráveis. Em abril, a inflação anual aumentou na OCDE e atingiu o nível médio de 3,3%, principalmente por causa do encarecimento da energia.

No G-20, a média anual subiu de 3,1% em março para 3,8% em abril. Na maior economia, a dos EUA, a alta de preços em 12 meses chegou a 4,2% naquele mês (e saltou para 5% em maio). No Brasil, a variação nesse período alcançou 6,8% em abril, mais que o dobro da taxa registrada na OCDE, e superou 8% em maio. Na zona do euro, em abril, os preços ao consumidor estavam apenas 1,6% mais altos que um ano antes. No grupo das sete maiores economias capitalistas a diferença estava em 2,9%.

O quadro brasileiro fica muito mais sombrio quando se leva em conta a combinação da alta de preços com as condições do mercado de trabalho. Estas condições incluem, além do desemprego, os efeitos da alta informalidade, dos empregos com jornadas insuficientes, da precariedade da ocupação por conta própria e, naturalmente, do desalento, isto é, do abandono temporário da busca de ocupação por muitos trabalhadores (cerca de 6 milhões na última apuração). O total dos subutilizados foi estimado em 33,2 milhões, recorde da série iniciada em 2012.

Também é preciso considerar, numa comparação realista, a situação de dezenas de milhões de famílias desprovidas, no primeiro trimestre, do auxílio emergencial suspenso em janeiro e só retomado, com maiores limitações, a partir de abril. Quando todos esses fatos são lembrados, a composição do trio Austrália-Coreia-Brasil fica muito estranha.

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