Um foguete de voo curto

A indústria perdeu impulso desde o meio de 2020 até recuar em fevereiro

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 03h00

Sem fôlego, a indústria produziu em fevereiro 0,7% menos que em janeiro. Esse tropeço é mais uma confirmação de um mau começo de ano na economia, em grande parte explicável por erros do governo. Analistas do mercado, no entanto, classificaram o resultado como surpreendente. Haviam previsto produção 0,5% maior que a do mês anterior. Difícil, mesmo, é entender essa expectativa, quando se consideram quatro fatores: o alto desemprego, a interrupção do auxílio emergencial, o consumo fraco e o desempenho da indústria desde maio, quando começou a recuperação do primeiro impacto da pandemia.

A retomada foi muito forte no início, porque era preciso, em primeiro lugar, sair do fundo do poço. Mas a reação logo perdeu vigor e nenhum analista deveria desprezar esse dado. A trajetória da indústria assemelhou-se à de um foguete com muito impulso apenas no lançamento.

Os números proporcionam um traçado fácil. A produção industrial caiu 9,4% em março e mais 19,5% em abril. A reação começou em maio, com expansão de 8,7%. Continuou forte por mais dois meses, com variação de 9,4% em junho e 8,7% em julho. A partir daí as taxas de crescimento diminuíram seguidamente. Em outubro e novembro o ritmo já estava reduzido a 1% ao mês. A velocidade caiu para 0,8% em dezembro e 0,4% em janeiro. Ninguém deveria surpreender-se diante de um número muito modesto, ou mesmo negativo, em fevereiro.

Como o setor industrial depende muito do mercado interno, seu desempenho é determinado principalmente pelo consumo. Com orçamento apertado e muita insegurança, a maior parte das famílias conteve os gastos desde o fim de 2020. As vendas do comércio varejista diminuíram 0,1% em novembro, encolheram 6,2% em dezembro e recuaram 0,2% em janeiro. Os estatísticos podem falar de estabilidade, quando a variação é de 0,1% ou 0,2% para cima ou para baixo, mas o quadro é certamente ruim. Em janeiro, o volume vendido foi 0,3% inferior ao de um ano antes.

O freio no consumo familiar, desde os meses finais de 2020, é facilmente explicável por fatores bem conhecidos. Entre setembro e dezembro a ajuda emergencial ficou em R$ 300 por mês, metade do valor pago nos meses anteriores. Suspenso a partir de janeiro, o auxílio deve ser retomado, com valores menores e para menor número de pessoas, a partir deste mês.

O auxílio minguou e sumiu, mas o desemprego continuou elevado. Na virada do ano, estavam desempregados 14,3 milhões de pessoas, 14,2% da força de trabalho. Os desocupados e outros subutilizados, no entanto, formavam um contingente de 32,4 milhões. O número de ocupados cresceu ligeiramente no trimestre de novembro a janeiro, mas em grande parte por efeito sazonal e por meio de contratações informais.

Esses fatos bastariam para compor um quadro de consumo contido e de muita insegurança. Mas a esses fatores ainda se adicionou uma forte aceleração inflacionária, desastrosa para a maioria das famílias.

Campanhas de arrecadação de dinheiro e de alimentos vêm sendo realizadas por várias organizações para levar comida às famílias em pior situação. Pandemia e políticas erradas levaram milhões de pessoas à fome, na 12.ª maior economia do mundo, uma das maiores produtoras e exportadoras de alimentos. Quanto à classificação – 12.ª maior economia – também é consequência dos erros cometidos em Brasília. Quando o governo Bolsonaro foi instalado, o Brasil era a 9.ª economia, mas a atividade derrapou desde o início do mandato.

Quanto à indústria, já ia mal naquele momento. Poderia ter melhorado, se o novo governo percebesse os problemas e tivesse competência para conduzir uma política econômica. Não teve nem parece ter progredido nesse aspecto.

Hoje, com meses de atraso, o Executivo dispõe de um Orçamento defeituoso, distorcido no Congresso e bem pior que o projeto original. Este já era muito ruim, porque a equipe econômica foi incapaz de criar um plano para 2021. Perdido o primeiro trimestre, alguma reanimação poderá ocorrer a partir de agora, mas o retorno ao patamar de 2019 será demorado.

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