Um legado para ser mantido

Inflação baixa é conquista para ser administrada e preservada com muito empenho

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2019 | 03h00

Longe de ser uma vitória definitiva, a inflação baixa é uma conquista para ser administrada e preservada com muito empenho pelo governo, pela autoridade monetária e também pela sociedade, advertiu o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, em entrevista ao Estado. Para o governo e para os políticos, o recado principal enfatiza, neste momento, a importância de avançar no programa de ajustes e reformas, com prioridade para a da Previdência. Se o presidente Bolsonaro, sua equipe e seus aliados falharem na arrumação das contas públicas, a inflação subirá de novo. Esse aviso complementa a advertência. É uma fala realista e clara para quem tem alguma ideia de como se formam e se comportam os preços. O presidente da República deve levar muito a sério essa mensagem e mantê-la como lembrete em sua pasta de trabalho, mas para isso precisará desviar-se, por alguns instantes, das brigas, intrigas e rivalidades entre ministros e membros da “filhocracia”. 

Inflação controlada é condição essencial para os atuais juros básicos de 6,50%, notavelmente baixos para os padrões brasileiros. O sucesso da política de ajustes e reformas será portanto indispensável também para a manutenção dos juros nesse nível – e para a sua redução, quando as condições forem favoráveis. Novos cortes, antes disso, seriam muito arriscados. O BC, disse Goldfajn, precisa concentrar-se em medidas sustentáveis. A hipótese de juros mais baixos tem sido um tema frequente entre analistas econômicos, há algumas semanas, e também por isso a recomendação do presidente do BC é oportuna. 

Sua mensagem é de continuidade, quando se refere à atuação da autoridade monetária nos próximos meses. Goldfajn usou a palavra cautela na entrevista. Na ata de sua última reunião, os membros do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, usaram os termos cautela, serenidade e perseverança. Esses princípios, acrescentaram, têm sido úteis, mesmo “diante de cenários voláteis”, para manter a inflação no rumo das metas. 

A próxima reunião do Copom será provavelmente comandada por um novo presidente do BC, o economista Roberto Campos Neto. Indicado pelo presidente Bolsonaro, sua nomeação deve ser confirmada em breve, depois de uma audiência especial no Senado. Segundo Goldfajn, seu provável sucessor deverá manter as linhas básicas da política atual. 

A inflação atual, pouco abaixo da meta, e a taxa básica de juros há quase um ano em 6,50% são explicáveis, de acordo com o presidente do BC, principalmente pela política monetária. A inflação batia em 10% e a economia estava em recessão quando essa política foi implantada. A capacidade ociosa ainda existente contribui para manter os preços contidos, mas está longe, portanto, de explicar o recuo da inflação e sua permanência perto de 4%.

Mas a ação do BC, bem-sucedida até agora, será insuficiente para manter esse quadro se as contas públicas continuarem desarranjadas. “Não há mágica”, disse Goldfajn. “No médio e no longo prazos, a política monetária não conseguirá manter a inflação baixa se não tivermos reformas.”

Mas a arrumação das finanças de governo, embora essencial, é só um passo para a criação de condições propícias a um crescimento mais vigoroso e sustentável. Ainda serão necessárias, como se indicou na última ata do Copom, medidas para tornar a economia mais flexível, para aumentar a produtividade e elevar o potencial de crescimento. A redução dos juros para os tomadores finais também será importante. Entre maio de 2016 e dezembro de 2018, a taxa passou de 32% para 23% ao ano, lembrou Goldfajn, mas novos avanços serão importantes. Isso dependerá da continuação da agenda do BC, com apoio à diversificação de fontes de financiamento e, acentuou Goldfajn, da redução do custo Brasil. 

Por enquanto, já haverá um avanço considerável se o governo mostrar competência na aprovação de uma boa reforma da Previdência e na gestão orçamentária. Mas será bom o presidente Bolsonaro começar pela pacificação e coordenação do próprio Executivo. 

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