Um longo e penoso desemprego

Trabalhador que busca vagas há mais de dois anos precisa lidar com a desconfiança das empresas sobre suas habilidades

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2021 | 03h00

Uma reportagem do Estado com base em uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou o impacto da crise econômica e seus cruéis efeitos na vida dos brasileiros. Quase 30% dos 13,5 milhões de desempregados no País buscam uma vaga há mais de dois anos. O indicador, referente ao terceiro trimestre deste ano, é o maior de toda a série histórica iniciada em 2012 – nos três primeiros meses de 2020, eram 23,9%.

Aumentou, também, a proporção de pessoas que buscam postos há mais de um ano, de 12,6% no primeiro trimestre de 2020 para 19,5%. Não bastasse a situação, que por si só já é desesperadora, esses trabalhadores, em sua maioria de baixa escolaridade, ainda precisam lidar com a desconfiança sobre suas habilidades, explicou Maria Andreia Lameiras, uma das autoras do levantamento do Ipea. “Ele já estava fora do mercado quando veio uma pandemia, que deixou muita gente qualificada sem emprego. As empresas vão primeiro voltar a contratar essas pessoas mais qualificadas, com mais escolaridade, há menos tempo procurando vaga. Quem está há mais tempo desempregado vai ficar no final da fila”, disse.

Um aspecto perverso dessa situação é que ela se retroalimenta: quanto mais tempo sem emprego, mais difícil é arrumar um novo serviço, explicou Rodolpho Tobler, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Sem alternativa, esses trabalhadores têm recorrido a vagas informais para sustentar suas famílias. Dados da Pnad Contínua mostram que o desemprego recuou para 12,6% no terceiro trimestre, ante 14,9% no mesmo período de 2020. No setor privado, porém, aqueles com carteira assinada tiveram avanço de 5,9%, enquanto os sem registro subiram 18,5%. Única opção para boa parte das mulheres sem qualificação, as mais atingidas pelo fechamento de postos nos últimos dois anos, os serviços domésticos tiveram alta de 4% na modalidade formal e de 28,1% na informal.

A mesma Pnad Contínua mostra que a renda do trabalhador registrou queda histórica de 11,1% no terceiro trimestre em relação ao mesmo período de 2020. Para fazer frente a isso, boa parte dos brasileiros tem recorrido ao emprego por conta própria, que bateu recorde. Já são 25,46 milhões de pessoas que tocam negócios sozinhos ou com sócios, mas sem subordinados, ante 21,34 milhões nos três primeiros meses de 2020. O economista Cosmo Donato, da LCA Consultores, afirmou ao Valor Econômico que esse movimento reflete uma mudança estrutural no mercado de trabalho ao longo da última década, agravado pela precarização da pandemia.

Aos brasileiros, resta se virar para sobreviver da melhor forma que puderem, já que as prioridades do governo são reajustar os salários de policiais e direcionar verbas bilionárias para emendas parlamentares. O desemprego no País permanece bem maior que a média de 7,5% na zona do euro e de 5,1% nos Estados Unidos, e nenhum indicador da economia dá esperanças de que essa taxa volte ao patamar de um dígito no curto e médio prazos.

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