Um mau governo contamina

Até a construção civil, que estava bem, dá sinais de que já sente os efeitos da crise

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 03h00

A resistência parece se esvair até mesmo em setores que se mostravam imunes à deterioração da economia decorrente da inépcia e da irresponsabilidade do governo de Jair Bolsonaro no trato de assuntos de interesse coletivo. A indústria da construção, cujo desempenho vinha superando o dos demais segmentos, dá sinais de que começa a perder o vigor. A confiança do empresário da construção caiu em outubro, depois de cinco meses de alta. No mercado imobiliário, lançamentos começam a superar as vendas, invertendo uma tendência que vinha sendo observada há vários meses. Os financiamentos para a compra de casa própria diminuem.

Essa mudança de trajetória não chega a surpreender. O cenário econômico piorou. O poder de compra dos consumidores não está evoluindo no mesmo ritmo do avanço dos preços. Embora continuem em níveis historicamente baixos, os juros estão subindo. As projeções para o crescimento da economia neste e no próximo ano vão sendo cortadas a cada nova avaliação com o mercado feita semanalmente pelo Banco Central. A inflação se acelera. E as finanças públicas cada vez mais parecem descontroladas. Para o governo federal, nada disso importa.

A queda de 0,3 ponto do Índice de Confiança da Construção, calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), após cinco meses consecutivos de alta, parece sintetizar a mudança do cenário. É uma variação ainda discreta, mas, se persistir, pode tornar-se significativa num segmento de grande capacidade de absorção de mão de obra e cujo desempenho vinha superando amplamente o de outros.

O quadro atual afetou o humor do empresariado. “Uma avaliação mais negativa dos negócios no presente levou à primeira queda da confiança do setor em seis meses”, diz a coordenadora do estudo do Ibre/FGV, Ana Maria Castelo.

O mercado imobiliário, por exemplo, mostrou grande vigor a partir de março do ano passado, quando a pandemia impôs severas restrições às demais atividades econômicas. Mas o quadro talvez não seja mais esse. Relatórios preliminares das maiores incorporadoras do País indicam que o setor ampliou os lançamentos no terceiro trimestre do ano, mas o ritmo não foi acompanhado pelas vendas. Os lançamentos aumentaram 19,2%, enquanto as vendas líquidas cresceram apenas 1,7%, como mostrou reportagem do Estado (23/10).

Quanto ao crédito, dados da Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) indicam que os financiamentos imobiliários com recursos das cadernetas mostram bons resultados no acumulado do ano e dos últimos 12 meses. Mas diminuíram 15% em setembro, na comparação com agosto.

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) aponta a alta dos preços de materiais, equipamentos e serviços como um importante entrave ao crescimento do setor, que estima em 5% neste ano. O problema vem sendo destacado desde o início do ano, mas dados recentes mostram que, embora ele persista, seu peso vem diminuindo. Em seu lugar, passam a crescer as dificuldades que um mau governo não para de criar.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.