Um milagre às avessas

Num milagre econômico ao contrário, a indústria recuou dez anos

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2019 | 03h00

Num milagre econômico ao contrário, a indústria recuou dez anos e voltou em fevereiro ao nível de produção de março de 2009. Com os consumidores ainda retraídos, o desemprego acima de 12% e o empresariado inseguro, a atividade industrial continua emperrada, como se mal houvesse escapado da recessão. Enquanto a economia se arrasta, o governo tenta ajustar-se ao regime de Três Poderes independentes e, tanto quanto possível, harmônicos. A produção industrial aumentou 0,7% de janeiro para fevereiro, mal conseguindo anular a queda de igual porcentagem no primeiro mês do ano. O volume produzido no primeiro bimestre foi 0,2% menor que o de um ano antes e o crescimento em 12 meses ficou em 0,5% – mais um claro sinal de enfraquecimento do setor desde o segundo semestre de 2018.

Não há sinal, por ora, de maior animação econômica, embora o governo já tenha quase cem dias. Mas a deterioração do setor industrial, é justo reconhecer, começou bem antes das últimas eleições. O motor da indústria começou a falhar com frequência a partir de 2012, no segundo ano do governo de Dilma Rousseff.

Em maio de 2011, a produção havia atingido o pico da atual série do IBGE. Em fevereiro de 2019, o produto industrial ficou 16,3% abaixo daquele pico. O caminho de volta para qualquer nível anterior à recessão continua longo, e ainda continuará, se a produção industrial crescer 2,5% neste ano, como se estima no mercado. Mas essa projeção envolve o pressuposto de aprovação da reforma da Previdência, mais precisamente, de um projeto razoavelmente próximo daquele apresentado pelo Executivo. 

Sinais de “leve recuperação” do setor, em fevereiro, foram encontrados na pesquisa de indicadores industriais da Confederação Nacional da Indústria (CNI). As horas de trabalho na produção foram 1,6% maiores que em janeiro, o uso da capacidade instalada aumentou 0,1 ponto de porcentagem e o faturamento real cresceu 1,6%. Mas o emprego diminuiu 0,1% e também o rendimento médio real e a massa de salários encolheram. Além disso, todos os indicadores de produção, de faturamento e de remuneração de mão de obra mostraram perdas em relação aos números de fevereiro de 2018

A perda de impulso fica especialmente clara quando se levam em conta as comparações com os dados de um ano antes. Na maior parte de 2017 e 2018, os dados da indústria, mesmo oscilando de um mês para outro, indicaram uma tendência contínua de melhora depois da longa e funda recessão. No caso da produção industrial, a fase recessiva iniciada em 2014 durou três anos. Para o conjunto da economia, representado pelo PIB, os números negativos foram os de 2015 e 2016. 

Os dados do IBGE mostram duas comparações interanuais com resultados negativos, quando se consideram os grandes itens. No primeiro bimestre, a fabricação de bens intermediários foi 0,9% menor que a de um ano antes, e a produção da indústria geral foi 0,2% inferior. Mas ainda seria preciso olhar com mais cuidado uma variação positiva. 

O volume produzido pela indústria geral, em fevereiro, superou por 2% o de um ano antes, na estatística divulgada formalmente. Mas fevereiro de 2019 teve dois dias úteis a mais que o de 2018, porque o carnaval deste ano foi em março. Sem essa diferença, o confronto mostraria uma queda de 1,3%, advertiu o responsável pela pesquisa, André Macedo. E falta saber, acrescentou, se algumas indústrias anteciparam a produção por causa dos feriados previstos para março.

Falta um ponto. O setor extrativo produziu em fevereiro 14,8% menos que em janeiro, por causa do desastre de Brumadinho, e isso afetou o conjunto. Mas essa perda de produção terá sido uma anomalia? Ou seria mais correto classificar como anomalia a produção realizada em condições de enorme perigo para centenas de pessoas e para o ambiente?

Feito o balanço geral, o resultado é claro. A indústria continua mal e dificilmente ganhará vigor enquanto a incerteza travar os negócios. O foco da incerteza é Brasília – mais precisamente, o Palácio do Planalto. 

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