Um ministro abusado

Brasileiros colhem os ventos e os raios da tormenta criada pela copa e cozinha de Bolsonaro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2020 | 03h00

Duas semanas após o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ter provocado uma crise diplomática ao publicar um tuíte acusando os chineses de terem escondido informações sobre o início da pandemia do novo coronavírus, o que levou o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, a divulgar uma nota na qual afirmava que o filho do presidente Bolsonaro contraíra um “vírus mental que infectou a amizade entre os povos”, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, fez uma bobagem semelhante. Em tuíte postado no sábado, usou a imagem do Cebolinha, personagem da Turma da Mônica, na Muralha da China, e substituiu o “r” pelo “l”, ironizando o modo como ele acha que os chineses falam português. “Quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial?”, escreveu o ministro.

Essa iniciativa irresponsável foi marcada por três importantes coincidências. Entre segunda e terça-feira da semana passada, o governo brasileiro foi surpreendido com a decisão do governo chinês de enviar material médico-hospitalar para os Estados Unidos, em detrimento de acordos que já haviam sido firmados com o Brasil. Na quinta e na sexta-feira, o ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, deu declarações explicando o quanto o Brasil depende do fornecimento de equipamentos provenientes da China, a principal fonte mundial de material médico-hospitalar, para poder enfrentar a pandemia do novo coronavírus de modo eficiente. Além disso, no dia em que Weintraub postou seu tuíte, o cônsul-geral da China no Rio de Janeiro publicou um artigo no jornal O Globo refutando as declarações ofensivas do filho do presidente Jair Bolsonaro.

Após a inconsequente atitude do ministro da Educação, que deu a medida de seu despreparo, a embaixada da China distribuiu nota classificando suas palavras e ironias como “absurdas e desprezíveis”, com “cunho fortemente racista e objetivos indizíveis”. A nota também afirma que, ao estigmatizar os chineses, o tuíte de Weintraub vai na contramão da “cooperação proativa internacional necessária para acabar com a pandemia e restabelecer a saúde pública mundial com brevidade”.

Nas duas notas de protesto divulgadas pela embaixada em resposta às tolices do filho de Bolsonaro e de seu ministro da Educação, o denominador comum foi a menção ao fato de que as falas de ambos “causaram influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”. Isso dá a medida do descalabro com que o governo Bolsonaro vem se comportando em matéria de política externa. Justamente no momento em que o Brasil mais precisa da China para salvar vidas, a população brasileira colhe os ventos e os raios da tormenta criada pela copa e cozinha do presidente da República.

No primeiro incidente, em vez de pedir desculpas exigidas pela China, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, saiu em defesa do filho do presidente, limitando-se a afirmar que a opinião do deputado Eduardo Bolsonaro não refletia a posição do governo brasileiro. O que dirá agora após o segundo incidente, quando tolices semelhantes foram postadas por um ministro de Estado? Ainda no primeiro incidente o presidente Bolsonaro tentou remediar os efeitos negativos da fala de seu filho e ligou para o presidente chinês, Xi Jinping, a pretexto de “reforçar os laços de amizade”. Se for atendido, o que poderá alegar agora, depois do texto difamatório que Weintraub postou em seu Twitter?

Em matéria de relações exteriores, os países têm de fazer escolhas. Como qualquer nação soberana, a China escolhe os beneficiários do material médico-hospitalar que produz conforme seus interesses estratégicos e com base na qualidade de seus relacionamentos bilaterais. Diante do estrago feito primeiramente pelo deputado Eduardo Bolsonaro e, agora, pelo ministro Weintraub, qual será o comportamento do governo brasileiro, uma vez que nada fez para merecer tratamento favorecido ou prioritário do governo chinês nesta crise sanitária?

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