Um motor enfraquecido

Famílias endividadas podem ter dificuldade para ativar o consumo no segundo semestre

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2020 | 03h00

O consumo das famílias deve ser o motor da reativação econômica, mas esse motor poderá estar enfraquecido nos próximos meses.

Com menos dinheiro e mais dívidas, será mais difícil ir às compras. Além disso, mesmo quem estiver com as contas em ordem poderá ser contido pela prudência. Hábitos foram alterados durante a quarentena e algumas mudanças poderão perdurar. Uma nova expansão do endividamento foi comprovada em pesquisa recém-publicada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). Neste momento, isso é muito mais que uma informação estatística. É um alerta, e a equipe econômica deveria considerá-lo em seu planejamento – se houver algum – da retomada.

Mesmo com a redução do consumo o endividamento cresceu. Um novo recorde foi alcançado em junho, quando 67,1% das famílias consultadas informaram ter dívidas. Foi a maior parcela registrada na série iniciada em janeiro de 2010. Os débitos incluem cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo especial, prestação de carro e seguro. As mais pobres, no entanto, falam em falta de dinheiro até para liquidar contas de água e esgoto e eletricidade. Podem estar protegidas contra a cobrança dessas contas, por enquanto, mas dificilmente estarão em condições mais confortáveis quando a epidemia tiver amainado.

O total de endividados passou de 64% para 67,1% em um ano. A parcela de famílias com dívidas em atraso aumentou de 23,6% para 25,4%. Foi a maior porcentagem desde dezembro de 2017. Das famílias em atraso, 11,6% disseram-se incapazes de pagar. Foi o pior resultado desde 2012. Em abril e maio havia diminuído a parcela de famílias inadimplentes, mas o prolongamento da crise inverteu esse movimento.

Nem as datas comemorativas têm estimulado as compras. Além da quarentena, o orçamento mais apertado deve ter limitado os arroubos. Na semana do Dia das Mães, celebrado em maio, as vendas do comércio foram 30,7% menores que as de um ano antes. Para o Dia dos Namorados, comemorado em 12 de junho, as lojas venderam 27,8% menos que no ano anterior. Os dois levantamentos, publicados pela Serasa Experian, apontam negócios ainda muito fracos nos dois meses finais deste semestre. Abril pode ter sido a pior fase, como dizem analistas, mas sinais de melhora continuam pouco visíveis.

Perda de renda, isolamento e insegurança financeira impuseram ao varejo uma queda de 16,8% em abril. A média móvel trimestral caiu 6,1%. Nos primeiros quatro meses o volume vendido foi 3% inferior ao de janeiro-abril de 2019. A crise afetou também os serviços prestados às famílias e a atividade nessa área despencou 44,1% em abril. Em dois meses a perda acumulada chegou a 61,54%.

Quando a pandemia atingiu o País, as famílias já estavam pressionadas pelo desemprego e pela insegurança, e o consumo já era baixo. Em janeiro, as vendas do varejo haviam sido 1,3% menores que em dezembro. A melhora observada em fevereiro, quando o volume superou por 0,5% o do mês anterior, foi insuficiente para mudar o cenário. Em março os números foram de novo negativos, com as lojas vendendo 2,1% menos. Nesse dado ainda é pouco visível o efeito da covid-19, mas no mês seguinte o impacto foi amplo e desastroso.

A agropecuária pode ter crescido em abril, mas indústria, varejo e serviços perderam muito. O primeiro esboço de um retrato completo surgiu com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central, em queda mensal de 9,73%. A comparação com o quadro de abril de 2019 mostrou uma perda de 15,09%. Os dados oficiais do Produto Interno Bruto (PIB), calculados de modo mais completo, poderão proporcionar um cenário diferente, mas ainda, com certeza, muito feio. A recuperação será uma dura escalada a partir de um patamar muito baixo. O balanço final do ano ainda será negativo. As estimativas têm variado, mas em geral apontam contração na faixa de 6% a 8% em 2020, mesmo com alguma retomada no segundo semestre. Um fator muito importante será o consumo das famílias, hoje muito endividadas e inseguras – uma complicação a mais para o governo.

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