‘Um número enorme, né?’

Brasil superou a marca de 400 mil mortes por covid-19 e Jair Bolsonaro segue incapaz de transmitir esperança por dias melhores

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2021 | 03h00

O Brasil ultrapassou a terrível marca de 400 mil mortes na pandemia de covid-19. Cada vítima desta peste conta uma história interrompida de súbito e deixa um vazio de dor e de possibilidades não vividas para seus familiares e amigos. Olhados em conjunto, os milhares de mortos compõem um mosaico de rostos que refletem a frieza e a inépcia de um governo que quase nada fez para evitar o morticínio, a despeito de ter à sua disposição todas as condições, não apenas financeiras, para agir com seriedade contra a maior ameaça sanitária a se abater sobre a Nação em mais de um século.

A história desta pandemia no Brasil, o segundo país com o maior número de mortos, somente atrás dos Estados Unidos (575 mil), está marcada de forma indelével como uma tragédia construída com desvelo por um conjunto de ações e omissões daqueles que, fosse por dever de ofício, fosse por imperativo moral, deveriam ter agido com cuidado e responsabilidade, mas, pelas mais variadas razões, simplesmente não o fizeram.

É de destacar que mais da metade das mais de 400 mil mortes ocorreu nos quatro primeiros meses de 2021, superando o total de óbitos em decorrência da covid-19 registrados ao longo de todo o ano passado. Vale dizer, mais de 200 mil brasileiros morreram vítimas de uma doença contra a qual já havia ao menos quatro vacinas aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Uma das perguntas que os senadores que compõem a CPI da Pandemia deverão responder ao final do trabalho da comissão de inquérito é: por que essas vacinas não foram aplicadas a tempo e em um número de brasileiros suficiente para conter o avanço do vírus?

Registre-se ainda que outra grande parte das vítimas pereceu quando medidas não farmacológicas que poderiam evitar o pior, como o uso de máscaras e o isolamento social, foram reiteradamente desacreditadas pelo governo federal, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro, quando sua adoção deveria ter sido amplamente estimulada. Inolvidável também foi a campanha levada a cabo pelo presidente da República para promover “tratamentos” tão eficazes contra a covid-19 quanto um comprimido de aspirina.

Sem sequer citar o número de vítimas fatais da doença no País que, desafortunadamente, lhe coube governar, Jair Bolsonaro se limitou a dizer em uma de suas lives que o País “chegou a um número enorme de mortes agora aqui, né?” Sim. E em grande medida em virtude do descalabro que é a administração federal da crise sanitária.

Para desventura da Nação, o meio milhão de mortos pelo coronavírus está muito mais próximo do que o recuo da disseminação do patógeno e, consequentemente, da queda do número de casos e mortes. O salto de 300 mil para 400 mil mortes se deu em apenas 36 dias. Novas cepas do vírus em circulação, sabidamente mais contagiosas, indicam um cenário nada alentador para as próximas semanas ou meses. Já há epidemiologistas que anteveem a eclosão da terceira onda da doença no País.

A vacinação da população segue em velocidade muito aquém da velocidade de transmissão do vírus. Por sua vez, muitos cidadãos parecem dar como vencido o enfrentamento da peste, deixando de adotar as medidas sanitárias que podem ajudar a reduzir o número de contágios e salvar vidas. São cada vez mais frequentes os registros de festas clandestinas, aglomerações e desleixo com o uso de máscaras. A pesada conta da incúria do governo e da irresponsabilidade dos cidadãos haverá de chegar, mais cedo do que tarde.

Não foi por falta de informação e meios que o governo brasileiro deixou de agir para enfrentar a pandemia de forma correta. Não por acaso, o desastre é uma marca comum de países governados por quem fez pouco-caso da gravidade da ameaça sanitária. O Brasil é um deles. A Índia é outro. Os Estados Unidos reverteram a curva de casos e mortes após um presidente genuinamente preocupado com seu povo ter tomado as rédeas da situação. Aqui, Bolsonaro segue incapaz de transmitir esperança por dias melhores.

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