Um país fora dos padrões

Desemprego alto e governo lento elevam incerteza e travam a reação econômica

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2021 | 03h00

Campeão do desemprego entre os grandes países emergentes, o Brasil precisa do auxílio especial aos mais pobres como forma de conter uma catástrofe. Com 13,9 milhões de pessoas em busca de uma vaga, número equivalente a 13,9% da força de trabalho, o País fechou 2020 com o dobro da desocupação registrada na OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. No trimestre final do ano passado, os desocupados eram, em média, 6,9% da população ativa dos 37 países da organização. A taxa ficou abaixo de 10%, nesse período, em 32 desses países. Nas três maiores economias do grupo, foi inferior a 7%: nos Estados Unidos, 6,8%; no Japão, 3%; e na Alemanha, 4,6%.

O desemprego muito alto, no entanto, mostra apenas a parte mais visível, e de maior efeito imediato, dos problemas do mercado de trabalho. O subemprego continuou muito amplo, os desalentados eram 5,5% da força de trabalho e 39,5% dos ocupados – por conta própria ou assalariados – estavam na informalidade. Em 15 Estados a informalidade superou 45% da população ocupada. Em 9, todos do Norte e do Nordeste, ultrapassou 50%. 

Dezenas de milhões das famílias mais vulneráveis puderam viver um pouco melhor, no ano passado, com o auxílio emergencial. Interrompida a partir de janeiro, essa ajuda agora deve voltar. Com isso, as famílias mais pobres terão garantida pelo menos a alimentação ou alguma alimentação. Mesmo com ajuda, o acesso à comida está muito complicado. Depois das altas no segundo semestre de 2020, os alimentos continuam caros, as pressões inflacionárias são preocupantes.

O dólar instável – por motivos políticos e pela ampla incerteza econômica – segue afetando os preços no mercado interno. Para diminuir a instabilidade, o Banco Central (BC) tem atuado no mercado cambial por meio de leilões de moeda americana. Pelo menos dispõe de bom volume de reservas para isso, mas o governo deveria dar mais atenção às oscilações do câmbio. Isso vale principalmente para o presidente Jair Bolsonaro, maior fonte, desde o ano passado, de instabilidade no mercado cambial.

Imprevidência e descuido, no entanto, são marcas da maior parte do governo. Como se os piores efeitos da pandemia devessem acabar em 31 de dezembro, a equipe econômica negligenciou, ao desenhar a proposta de Orçamento para 2021, as ações especiais de enfrentamento da crise. Por isso o auxílio emergencial desapareceu muito cedo, embora milhões de famílias precisassem de ajuda para as despesas mais importantes. Sem um claro programa de socorro aos necessitados, de sustentação da retomada econômica e de arrumação de suas contas, o governo contribuiu amplamente para o aumento da incerteza, para a redução da confiança de empresários e consumidores e para a instabilidade no mercado financeiro.

Com a péssima atuação do poder federal no enfrentamento da pandemia a insegurança aumentou. O negacionismo do presidente, seu continuado desprezo à vida dos brasileiros, a incompetência do ministro da Saúde e a imprevidência em relação à compra e à aplicação de vacinas agravaram o quadro sanitário e afetaram as expectativas econômicas.

Nos países onde a vacinação avançou e as medidas preventivas básicas foram reforçadas, têm melhorado os indicadores de atividade corrente e de expectativa. Isso é evidenciado, por exemplo, pelos Barômetros Globais da Economia, elaborados em colaboração pelo Instituto Econômico Suíço KOF, de Zurique, e a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Puxado pelo desempenho desses países, o barômetro coincidente subiu 4,5 pontos em março e chegou a 102,4 pontos. O barômetro global antecedente atingiu 117 pontos, com ganho de 11,9 pontos. No primeiro caso foi alcançado o nível mais alto desde dezembro de 2017. No segundo, a maior pontuação desde junho de 2010. 

Enquanto isso, no Brasil, esgotam-se as vagas em hospitais nas grandes cidades, recordes de contaminação e mortes se sucedem, os muito pobres esperam a ajuda emergencial, as projeções econômicas pioram e o presidente se volta ainda mais para seu projeto de reeleição.

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