Um respiro para o Rio Pinheiros

A vida de um rio urbano está intimamente ligada à vida da cidade que corta.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 03h00

Faz mais de três décadas que sucessivos governadores de São Paulo têm prometido limpar o Rio Tietê e seu afluente, o Rio Pinheiros. Ao assumir o Palácio dos Bandeirantes, João Doria renovou a promessa. Nessa questão, o que parece diferenciar o atual governador de seus antecessores é que, em relação ao Rio Pinheiros, o programa de despoluição parece bem encaminhado.

O governo paulista encerrou o ano de 2020 concluindo as obras para ligação da rede de esgoto de 120 mil residências na cidade de São Paulo. Quase todos esses imóveis foram construídos irregularmente em favelas, sob condições precárias. Sem a infraestrutura adequada, diariamente essas construções lançavam dejetos nos córregos que desembocam no Rio Pinheiros.

Para que a meta estabelecida pelo governador João Doria seja cumprida – despoluir o Rio Pinheiros até a conclusão de seu mandato, em 2022 – será necessário construir uma rede de coleta de esgoto adequada em 533 mil imóveis da capital. Especialistas ouvidos pelo Estado consideram que nos próximos dois anos é perfeitamente possível que o governo paulista conclua as obras nos 413 mil imóveis restantes.

Evidentemente, caso cumpra a arrojada meta que fixou para seu mandato, João Doria terá uma marca histórica em sua passagem pelo Palácio dos Bandeirantes. Porém, mais do que a conquista de um governo, um Pinheiros limpo será uma vitória dos paulistanos, que terão no rio um dos bens coletivos mais preciosos que os habitantes de São Paulo poderiam ter. A vida de um rio urbano, como o Rio Pinheiros, está ligada à vida da cidade que corta. Basta ver a relação que os parisienses têm com o Sena, os londrinos com o Tâmisa ou os lisboetas com o Tejo.

Um rio sem cheiro e com águas limpas abre espaço para a ocupação de suas margens. Tal como a oxigenação das águas enseja a vida no rio, a despoluição também assegura um florescimento de vida no entorno, com o aparecimento de bares, restaurantes e outros espaços de convivência. Mas não se pode perder de vista o maior objetivo do projeto de despoluição. “Ninguém está falando de um rio que vai estar disponível para natação, para esportes de contato direto com a água. Ninguém está falando em beber a água do Rio Pinheiros. Estamos falando de um rio que tenha a todo tempo condições aeróbias. Dessa maneira, ele deixa de cheirar mal”, disse ao Estado o presidente da Sabesp, Benedito Braga, à época do lançamento do projeto de despoluição.

Paralelamente à execução do projeto de despoluição do Rio Pinheiros, o governo de São Paulo também trabalha na assinatura de acordos com a iniciativa privada para a exploração comercial de áreas como a antiga Usina de Traição, hoje Usina São Paulo. Prevê-se que o local se torne uma espécie de “Puerto Madero” da capital paulista, em referência à área revitalizada de Buenos Aires. No local haverá um centro de convenções e restaurantes. Também é esperado para os próximos dias o resultado de uma licitação para a criação de um parque às margens do rio.

A despoluição dos rios que cortam São Paulo – uma causa que há muitos anos tem sido defendida pelo Estado – é virtuosa não só por seus benefícios estéticos ou de natureza econômica e urbanística. Ao fim e ao cabo, trata-se também de dar dignidade a milhares de paulistanos que vivem em condições sub-humanas, sem acesso à coleta adequada de esgoto. O modelo de remuneração das empresas que realizam as obras de criação de uma rede coletora paralela aos córregos é inteligente. O pagamento é feito pela quantidade de esgoto que deixa de ser lançada nos córregos, não pela quantidade de ligações feitas por residência irregular. Cria-se, assim, um estímulo para que o trabalho das empresas seja rápido e, mais importante, bem executado.

A vitória final será a retirada deste enorme contingente de paulistanos de áreas precárias, muitas delas absolutamente inóspitas. Mas, até lá, já será um grande passo o Estado de São Paulo e a Prefeitura, no que lhe compete, oferecerem a esses cidadãos condições de vida mais dignas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.