Um único inimigo

É hora de pôr o conflito armado em confinamento e lutar por nossa vida, diz o secretário-geral da ONU

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 03h00

Há cem anos da 1.ª Guerra Mundial – “a guerra para acabar com todas as guerras” –, 80 anos do início da 2.ª Guerra e 30 anos do fim da guerra fria, as nações foram novamente precipitadas numa guerra mundial, mas agora contra um único inimigo. Para dar a todo o mundo uma ideia da ferocidade desse combate, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, fez um apelo de cessar-fogo “em todos os cantos do mundo”.

“É hora de pôr o conflito armado em confinamento e focar juntos na verdadeira luta por nossas vidas”, disse Guterres. “O vírus não se importa com nacionalidade ou etnia, facção ou fé.” Em entrevista à CNN, Guterres lembrou o óbvio: “Uma guerra em dois fronts é terrível”. O apelo ecoou no Vaticano: “Parem todas as formas de hostilidade belicosa em favor da criação de corredores para ajuda humanitária, esforços diplomáticos e atenção a quem se encontra em grande vulnerabilidade”, suplicou o papa.

Há precedentes para uma esperança realista. Em 2004, um tsunami no Pacífico encerrou três décadas de guerra na Indonésia. Em 1995, os EUA negociaram seis meses de paz no Sudão para erradicar um surto do verme-da-guiné. Nos últimos anos, o Médicos Sem Fronteiras pôde atuar sob cessar-fogos curtos em Serra Leoa, no Congo e na África Central.

O apelo de Guterres não caiu no vazio. Apesar da guerra civil no Iêmen ser considerada pela ONU a maior crise humanitária global, com mais de 12 mil civis mortos durante os combates e 230 mil em consequência deles, o governo e a milícia Houthi acabam de pactuar o primeiro cessar-fogo desde 2016. Nas Filipinas, o presidente Rodrigo Duterte e as guerrilhas comunistas suspenderam as hostilidades da mais longa das rebeliões asiáticas. A milícia separatista de Camarões também declarou cessar-fogo. A cooperação entre as autoridades israelenses e palestinas para permitir o envio de profissionais de saúde, suprimentos e equipamentos para a Faixa de Gaza e para a Cisjordânia foi classificada pela ONU como “excelente”.

Por outro lado, a guerra civil na Líbia recrudesceu. Uma trégua humanitária curta chegou a ser negociada, mas durou menos de 24 horas. No dia seguinte, Tripoli sofreu um dos piores bombardeios deste ano. Tudo indica que as partes em conflito creem que a distração global causada pela pandemia é uma oportunidade não para negociar com seus adversários, mas para eliminá-los. Na Síria, ainda que um cessar-fogo em Idlib tenha sido pactuado no início de março e as milícias curdas tenham prometido “evitar ações militares”, os sistemas de saúde devastados pela guerra devem ser brutalmente bombardeados pelo vírus.

A ONU lançou um plano de US$ 2 bilhões para mitigar a pandemia em campos de refugiados e fez um apelo a que as sanções impostas a países como Irã, Cuba, Congo, Venezuela e Zimbábue sejam suspensas ou flexibilizadas, sobretudo para permitir o acesso a suprimentos e equipamentos médicos.

“Lutem como o diabo”, disse o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, aos líderes do G-20, entre eles Donald Trump e Xi Jinping. “Lutem como se suas vidas dependessem disso – porque dependem.” A cooperação entre China e EUA foi decisiva na crise financeira de 2008 e no surto de ebola em 2014, e é crucial para conter a pandemia e promover a recuperação econômica global. Mas, ao invés de suspender a sua “guerra fria” comercial, os dois países vinham trocando hostilidades. Felizmente, nos últimos dias os dois presidentes parecem ter pactuado um “cessar-fogo”.

A ONU pede um pacote de US$ 2,5 trilhões para socorrer os países em desenvolvimento. “Creio que o interesse próprio esclarecido prevalecerá”, disse Guterres. “Se o vírus não for suprimido no mundo em desenvolvimento, se alastrará como fogo em mato seco. Com milhões de transmissões, ele pode sofrer mutações e contra-atacar o mundo desenvolvido.” É uma constatação irrefutavelmente lúcida, assim como esta: “A fúria do vírus ilustra a loucura da guerra”. Ambas impõem a missão de lutar “como o diabo” para que a solidariedade na pandemia ilustre a sanidade da paz.

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